Gaúcho, provavelmente, não tem
motivos para rir. Errado.
Nem mesmo os poucos dentes ama-
relados que ainda restam, impedem ele
de contar sorrindo sobre os dez anos
que viveu como andarilho. Com a pele
branca e marcada por traços de sol, ele
exibe seu chapéu de palha usado para
se proteger do fantasma da morte do
pai: o câncer de pele.
É fato de que fantasmas da morte
sempre acompanharam a vida de gaú-
cho, talvez seja por isso que ele quis
andar sozinho. Aos 13 anos perdeu sua
mãe, o primeiro maior apego. Aos 20,
foi o pai. E, aos 31, sem conseguir se
despedir, os fantasmas levaram de uma
só vez a esposa e três filhas.
Crescido em sítio, gaúcho era o este-
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reotipo de homem valente e bem suce-
dido. Possuía terras, era funcionário da
prefeitura e ainda colecionava uma lin-
da família. A julgar pelos olhos verdes
e corpo esbelto, arrisco dizer que suas
filhas eram as mais bonitas da cidade
de Piaquara (região de Curitiba).
Se você chegou até aqui, caro leitor,
não pare. Pois agora é o momento em
que gaúcho mata seus fantasmas com
um tiro de espingarda! O homem que
viveu 31 anos sem provar nenhuma be-
bida alcoólica, viciou em pinga. “Bebia
para não ver sofrimento”, afirma com
longa pausa de silêncio. Para a bebida
ele perdeu todo seu patrimônio, mas
que pouco importava perto da partida
de sua família no acidente de carro.
Sem rumo, apoio familiar e afunda-