Eu Tenho Histórias Edição Única | Page 230

Gaúcho, provavelmente, não tem motivos para rir. Errado. Nem mesmo os poucos dentes ama- relados que ainda restam, impedem ele de contar sorrindo sobre os dez anos que viveu como andarilho. Com a pele branca e marcada por traços de sol, ele exibe seu chapéu de palha usado para se proteger do fantasma da morte do pai: o câncer de pele. É fato de que fantasmas da morte sempre acompanharam a vida de gaú- cho, talvez seja por isso que ele quis andar sozinho. Aos 13 anos perdeu sua mãe, o primeiro maior apego. Aos 20, foi o pai. E, aos 31, sem conseguir se despedir, os fantasmas levaram de uma só vez a esposa e três filhas. Crescido em sítio, gaúcho era o este- 230 reotipo de homem valente e bem suce- dido. Possuía terras, era funcionário da prefeitura e ainda colecionava uma lin- da família. A julgar pelos olhos verdes e corpo esbelto, arrisco dizer que suas filhas eram as mais bonitas da cidade de Piaquara (região de Curitiba). Se você chegou até aqui, caro leitor, não pare. Pois agora é o momento em que gaúcho mata seus fantasmas com um tiro de espingarda! O homem que viveu 31 anos sem provar nenhuma be- bida alcoólica, viciou em pinga. “Bebia para não ver sofrimento”, afirma com longa pausa de silêncio. Para a bebida ele perdeu todo seu patrimônio, mas que pouco importava perto da partida de sua família no acidente de carro. Sem rumo, apoio familiar e afunda-