Eu Tenho Histórias Edição Única | Page 216

O dia amanheceu diferente. Era como se uma benção tivesse sido liberada lá do céu e caído direto sobre a cabeça dele. Tudo caminhava conforme o cos- tume na grande Osasco. No centro, as pessoas andavam para lá e para cá em uma correria frenética, como se fossem embarcar no último trem do dia em uma viagem sem bilhete de volta. Era nos bairros mais afastados da região central que Francisco Edwigs Freitas, então com 20 anos, caminha- va tranquilo, depois de mais um dia de trabalho em um setor burocrático do Exército. Ele era homem simples, de estatura mediana, cabelos pretos como jabuticaba, jogados para trás, estilo galã de novela. Era pobre, mas ostenta- va um brilho especial no sorriso, graças aos vários dentes banhados a ouro que contrastavam com os olhos castanhos. Não escondia o gosto pelos famosos bailes que embalavam as noites da ci- dade. Era na dança que Francisco es- quecia, em meio às músicas, as dificul- dades que enfrentava diariamente. Ele sabia que no dia seguinte teria que vol- tar à realidade. Morava com o pai em um cubículo. No pequeno cômodo erguido no fundo de um quintal morava “de favor”. Havia pouca mobília, uma mesa de madeira encostada na parede onde ele fazia as refeições do dia, e uma cômoda mar- rom do outro lado. O sol daquela tarde insistia em ilu- minar mais um pouco antes do anoite- cer. Os feixes de luz pareciam combi- nar com a cor das estradas de chão do bairro onde Francisco morava. Ele não sabia, mas aquela data ficaria marcada como o dia em que os olhos castanhos teriam contato, pela primeira vez, com 216 FOTO: Raysson Schimmack a mais bela moça que chegara à cidade havia pouco tempo. Era Maria Pereira de Freitas, uma pernambucana que, assim como muitos outros jovens, ali- mentava o sonho de ter uma vida mel- hor nos grandes centros do País. As pupilas ficaram imóveis na tenta- tiva de apreciar, pelo maior tempo pos- sível, a beleza incomparável daquela jovem que caminhava do outro lado da rua. Apesar do coração rústico, molda- O segundo rapaz é o seo Francisco na época que servia o exército FOTO: Arquivo pessoal