Eu Tenho Histórias Edição Única | Page 151

Ela aprendeu o ofício ainda mocinha. Linhas, tecidos, agulhas e máquinas de costura fazem parte de sua vida desde que ela se entende por gente. A profissão, passada de mãe para filha, garantiu a vida dos filhos e sugou a dela. Noites em claro, costurando em um quarto no fundo da casa. Apenas o barulho da boa e velha máquina de costura faz companhia a ela madrugadas a fio. O nome da costureira é Mercedes Prado, 65 anos, e o semblante dela é cansado. As marcas do tempo ao redor dos olhos e da boca entregam uma vida de trabalho árduo naquela máquina de costura. Apesar de um pouco calejadas, as mãos, denunciam um resquício de vaidade. Muitos anéis e unhas longas e pintadas. O único sinal de vaidade em uma mulher que, à primeira vista, não tem vaidade alguma, estão em suas mãos, o seu maior instrumento de trabalho, mais importantes até do que a bendita máquina de costura. Ela acorda às seis – às vezes às cinco – da manhã. São muitas encomendas, com prazos sempre apertados. Além da costura, dois netos que ela cuida como se fossem filhos precisam de seu tempo e energia. Os afazeres domésticos também não podem ser negligenciados. O trabalho, por vezes, invade as madrugadas, e uma garrafa de café ao lado da máquina de costura se torna indispensável. Nas épocas de formatura, dormir é um privilégio. Muitas encomendas de vestidos longos, com direito a forros e drapeados, precisam ser divinamente executadas e entregues dentro do prazo. Afinal, é um dos dias mais importantes da 2 vida de quem usará o vestido. Nada pode dar errado. Tudo precisa ser perfeito. Vestidos para formandas, madrinhas de casamento e, claro, noivas. Durante grande parte da sua vida profissional, Mercedes costurou para noivas. Em uma época que era muito mais comum as noivas mandarem fazer os próprios vestidos do que alugá-los, podendo, assim, guarda-los eternamente GABRIELA MAIA Mercedes concilia os afazeres domésticos com a costura “À primeira vez que vi Mercedes, achei que ela tinha cara de brava. Nas outras vezes, percebi que ela é apenas uma mulher exausta”