Ela aprendeu o ofício ainda mocinha.
Linhas, tecidos, agulhas e máquinas de
costura fazem parte de sua vida desde
que ela se entende por gente. A profissão,
passada de mãe para filha, garantiu a
vida dos filhos e sugou a dela. Noites
em claro, costurando em um quarto
no fundo da casa. Apenas o barulho
da boa e velha máquina de costura faz
companhia a ela madrugadas a fio.
O nome da costureira é Mercedes
Prado, 65 anos, e o semblante dela é
cansado. As marcas do tempo ao redor
dos olhos e da boca entregam uma vida
de trabalho árduo naquela máquina de
costura. Apesar de um pouco calejadas,
as mãos, denunciam um resquício de
vaidade. Muitos anéis e unhas longas
e pintadas. O único sinal de vaidade
em uma mulher que, à primeira vista,
não tem vaidade alguma, estão em
suas mãos, o seu maior instrumento
de trabalho, mais importantes até do
que a bendita máquina de costura.
Ela acorda às seis – às vezes às cinco
– da manhã. São muitas encomendas,
com prazos sempre apertados. Além
da costura, dois netos que ela cuida
como se fossem filhos precisam de
seu tempo e energia. Os afazeres
domésticos também não podem ser
negligenciados. O trabalho, por vezes,
invade as madrugadas, e uma garrafa
de café ao lado da máquina de costura
se torna indispensável. Nas épocas de
formatura, dormir é um privilégio.
Muitas encomendas de vestidos
longos, com direito a forros e drapeados,
precisam ser divinamente executadas
e entregues dentro do prazo. Afinal,
é um dos dias mais importantes da
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vida de quem usará o vestido. Nada
pode dar errado. Tudo precisa ser
perfeito. Vestidos para formandas,
madrinhas de casamento e, claro, noivas.
Durante grande parte da sua vida
profissional, Mercedes costurou para
noivas. Em uma época que era muito
mais comum as noivas mandarem fazer
os próprios vestidos do que alugá-los,
podendo, assim, guarda-los eternamente
GABRIELA MAIA
Mercedes concilia os afazeres
domésticos com a costura
“À primeira vez que vi Mercedes,
achei que ela tinha cara de brava.
Nas outras vezes, percebi que ela é
apenas uma mulher exausta”