PORTUGUÊS
Português
Azeitonas e Pessoa ( s )
Por Ana Rita Diniz ( Professora do Grupo Disciplinar de Português )
Ilustrações para os heterónimos Álvaro de Campos , Ricardo Reis e Alberto Caeiro , por Rúben Marques , 12 .º TGPSI
E ntre a minha janela e a estrada nacional há uma espécie de jardim , uma relva escassa , intermitente , que , ainda assim , é frequentemente aparada e , todas as madrugadas , regada . A importância de se cuidar do jardim , mesmo que minúsculo , imperfeito , esquecido . Não é um jardim de recreio , é apenas um recanto escondido , as traseiras de dois prédios quase desabitados , e que serve como sítio de passagem . Há algumas árvores de que desconheço o nome e meia dúzia de oliveiras , umas com azeitonas verdes , outras pretas .
No domingo , desde o final da manhã até escurecer , uma mulher sozinha , de cabelo curto , boné , óculos de sol , luvas e um ar másculo , estendeu mantas verdes e brancas , colocou pedras nos cantos para não dançarem com os ventos , varejou as oliveiras , vertical , incansável , e depois , dobrada ,
Página 14 apanhou-as , as
que ficaram nas mantas e as que deslizaram para o asfalto , uma a uma , com as mãos agigantadas pelas luvas . Fez tudo isto sem parar , num domingo de céu azul e sol macio , pacientemente . Vareja oliveiras , mulher , vareja oliveiras , julgando-te feliz , talvez . E eu com uma grande constipação , a minha tarefa como a relva do jardim , intermitente , eu a precisar de coragem e aspirina , fechada em casa e a desejar a energia e a disciplina da mulher que apanha azeitonas sozinha num domingo .
No final do dia , leva apenas uma saca , fraca colheita para um dia inteiro de trabalho duro e solitário . Trabalho demorado e minucioso , como o que está na mesa à minha frente , mas que interrompo constantemente , excusez un peu , e a cabeça a doer indistintamente , os espirros , e o universo virado do avesso , ou talvez não , se sabedoria for contentarse com o espetáculo de um qualquer domingo e não dar o dia por perdido .
Hoje o varredor sem metafísica recolhe as folhas das árvores e as azeitonas que ficaram por apanhar , que já não vão prestar . E também este varre sem parar um chão que quase ninguém pisa , que ninguém saberia se estava varrido ou por varrer , que amanhã voltará a ter folhas espalhadas . Mas também este faz tudo como se alguém o contemplasse , e eu contemplo . E também ele pode emprestar-me a sua persistência para aliviar o peso da ciência e da constipação .
As azeitonas apanhadas e o chão varrido , e eu ainda nem a meio da minha lida , uma íssima íssima constipação física e a dureza do trabalho mental .
Fico a pensar nas pequenas azeitonas que ficaram espalhadas e na importância de me desviar das árvores alheias , a seguir o meu destino com a aceitação e delicadeza possíveis , como o gato que já não brinca na rua , mas que observa placidamente tudo pela janela e me morde as pernas a pedir comida e atenção , bastando-lhe isso para saber a verdade e ser feliz .