Dragões #433 Dez 2022 | Page 23

TEMA DE CAPA
Só no campeonato nacional , com a camisola do FC Porto , Fernando Gomes marcou 288 golos . Em competições oficiais , em todos os escalões , chegou perto da marca dos 800 . Por isso , o “ bibota ” de ouro sentiu dificuldades no momento de eleger o golo da sua vida . À memória , vieram-lhe quatro , por razões diferentes .

Frente ao Dínamo de Zagreb , na segunda mão da primeira eliminatória da Taça das Taças de 1983 / 84 , fez o tento ( 1-0 ) que permitiu ao FC Porto seguir em frente na competição , numa temporada em que chegaria à final . A quatro minutos dos 90 , o Estádio das Antas explodiu de alegria . Pelo simbolismo e importância na conquista de títulos , lembrou golos apontados no Estádio da Luz , em 1984 / 85 ( vitória por 1-0 e passo decisivo rumo ao campeonato nacional ), e no terreno do Dínamo de Kiev , na antecâmara da final de Viena , em 1987 . Porém , há um remate vitorioso que reúne emoção , espectacularidade e um carácter decisivo que levou Gomes a elegê-lo como o seu preferido . Estávamos na última jornada do campeonato de 1985 / 86 e o Estádio das Antas rebentava pelas costuras . Cada lugar nos degraus de cimento servia para duas pessoas . Motivo : se o FC Porto vencesse o Sporting da Covilhã , já despromovido , sagrava-se campeão nacional . Os Dragões

“ Este é o tipo de lance que um jogador só faz quando é o único recurso possível para ter êxito . Da forma como estava rodeado de adversários , só poderia ser golo assim .”
marcaram logo aos seis minutos , através de um penalti convertido por André , mas ao intervalo registava-se um empate ( 1-1 ). Aos 59 minutos , os serranos adiantaram-se mesmo no marcador . Houve sobressalto nas Antas , mas bastaram mais dois minutos para se restabelecer a igualdade , num lance espectacular : Frasco cruzou , Gomes recebeu a bola no peito e , sem a deixar chegar ao relvado , desferiu um remate indefensável . Tratou-se de uma acrobacia a meio caminho entre um pontapé de moinho e um pontapé de bicicleta , que traçou o destino do campeonato . O avançado viria ainda a fazer o 3-2 e o resultado final foi de 4-2 . Mais de 25 anos depois , Gomes precisou de rever o lance para se lembrar de todos os contornos e até julgava que o cruzamento de Frasco tinha vindo da esquerda , quando ele foi efectuado na meia-direita .
“ Este é o tipo de lance que um jogador só faz quando é o único recurso possível para ter êxito . Da forma como estava rodeado de adversários , só poderia ser golo assim . No remate , é difícil haver precisão e a bola tanto pode ir ao ângulo como sair completamente ao lado . Foi um momento de intuição ”, lembrou . O instinto não faltou a Fernando Gomes num momento difícil como aquele : o goleador recordou que a ansiedade era muita depois dos Dragões se verem em desvantagem . “ Felizmente , isso não nos inibiu de conseguirmos o que desejávamos ”, sublinhou . Este golo de Fernando Gomes pode ainda ser considerado o começo da campanha vitoriosa do FC Porto na Taça dos Campeões Europeus da época seguinte : “ À partida nunca pensámos nessa hipótese , mas , na realidade , tudo começou aí . Não sei se este foi o golo mais bonito da minha carreira , mas aqueles que nos ficam gravados na memória são os que se tornam decisivos . E este , ainda para mais , também foi de belo efeito ”.
Texto originalmente publicado na edição de julho de 2011
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