Se os duelos com o Liverpool já podem ser considerados um clássico da era de Sérgio Conceição à frente do FC Porto – serão seis jogos em pouco mais de três anos –, os encontros entre os Dragões e o Milan foram marcantes – e constantes – na década de 1990 : entre 1992 e 1996 , as duas equipas enfrentaram-se seis vezes , sempre na fase de grupos da principal competição mundial de clubes . A história cruzada dos dois colossos , no entanto , é bem mais antiga . Em 1906 , quando o Grupo do Destino de que fazia parte José Monteiro da Costa deu uma nova vida ao FC Porto , entre o conjunto de jovens que se juntou para jogar futebol e garantir que o clube teria força para se assumir como uma grande instituição desportiva estava um engenheiro químico italiano que trabalhava numa fábrica têxtil de Vila Nova de Gaia , Catullo Gadda . Aos 25 anos de idade , trazia no currículo um feito impressionante : em 1901 , tinha integrado a equipa do Milan que se sagrara campeã de Itália pela primeira vez , numa final frente ao Génova . Mais tarde , num tempo em que em Portugal ainda não havia organismos de enquadramento do futebol nem provas oficiais , tornouse o sócio número 11 do FC Porto e impressionou os que com ele jogaram por ter uma capacidade acima da média : “ Como tinha sido um bom jogador num dos principais clubes da sua Pátria , quando deu o primeiro pontapé deixou boquiaberta a rapaziada portuense :
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a bola atravessa o campo no seu máximo comprimento …”, cita Rodrigues Teles na “ História do Futebol Clube do Porto ”. Meio século depois , quando o futebol já se tinha tornado um fenómeno de massas e era de longe o desporto mais popular do planeta , outra figura relevante voltou a ser comum aos dois clubes : Béla Guttmann . Em 1953 , o Milan contratou o experiente treinador húngaro para devolver
os “ rossoneri ” aos títulos , após vitórias dos rivais Inter e Juventus nas duas edições anteriores do campeonato . O impacto de Guttmann foi forte . Por achar que as estrelas da equipa estavam pouco habituadas a trabalhar arduamente , instituiu a prática de treinos longos , exigentes e bidiários . A filosofia que implementou era simples : “ Quando tenho jogadores extraordinários , dou-lhes uma ordem : atacar ”. Nas duas primeiras épocas na Lombardia , Guttmann alcançou dois terceiros lugares , lançando as bases para o que viria a acontecer em 1954 / 55 : o Milan reconquistou o título , mas o treinador não chegou a celebrar plenamente o feito , uma vez que foi demitido a meio da época , numa altura em que era líder isolado . A rutura com a direção do clube aconteceu na sequência de um conflito com o treinador da Sampdoria , o também húngaro Lajos Czeizler , que envolveu uma cena de pancadaria entre as mulheres dos dois técnicos durante uma saída à noite em Milão . Algumas semanas depois , houve mais um episódio insólito , mas com contornos de tragédia : ao
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volante de um carro importado dos Estados Unidos , um Guttmann sem carta de condução atropelou e matou Giuliano Brene , um jovem de 17 anos . O amigo que seguia com Guttmann assumiu a responsabilidade pelo acidente e ilibou o treinador , mas o caso viria a ser reaberto , a verdade foi apurada e o húngaro foi condenado a seis meses de prisão em 1960 , numa altura em que já vivia em Portugal . Antes , a 22 de março de 1959 , numa tarde que viria a ficar para a história por causa dos esforços que Inocêncio Calabote fez para tornar o Benfica campeão , Guttmann celebrou o principal título nacional no banco do FC Porto . Curiosamente , tanto no Milan como nos Dragões , o técnico foi sucedido pelo mesmo homem : Héctor Puricelli , um uruguaio naturalizado italiano . Três décadas mais tarde , quando José Maria Pedroto e Jorge Nuno Pinto da Costa quebraram o jejum de conquistas da liga que vigorava desde o tempo de Guttmann com o bicampeonato de 78 / 79 , FC Porto e Milan encontraramse pela primeira vez em jogos oficiais . Os campeões de Itália eram favoritos e já tinham no currículo duas Taças dos Clubes Campeões Europeus – que resultaram de vitórias em finais frente a Benfica e Ajax –, mas não resistiram à qualidade e à organização dos azuis e brancos : um empate a zero na primeira mão , realizada no Estádio das Antas , deixou as decisões para San Siro , onde Duda , à passagem do minuto 60 , marcou o único golo da eliminatória . |
Quando as duas equipas se cruzaram por três vezes quase consecutivas na década de 1990 , o cenário era bem diferente . O FC Porto também já detinha o estatuto de campeão continental e a velha Taça dos Clubes Campeões Europeus já dera origem à Liga dos Campeões . Se , em 1979 , entre os jogadores do adversário só havia italianos , no final do século , o Milan , presidido pelo magnata e futuro primeiro-ministro Silvio Berlusconi , era uma constelação de estrelas internacionais , entre elas Gullit , Papin , Savicevic , Davids e Weah . Isso não impediu os Dragões de voltarem a surpreender a Europa em 1996 , quando deram a volta a duas situações de desvantagem e triunfaram de novo no Giuseppe Meazza , dessa vez por 3-2 e com Sérgio Conceição a jogar os 90 minutos . Afastado da Liga dos Campeões desde 2013 / 14 , nem por isso o Milan que enfrentará o FC Porto em 2021 / 22 deixa de ser um colosso . Duas vezes campeão europeu no século XXI – e vencedor da Supertaça da UEFA frente aos Dragões , em 2003 –, discutiu o título com o Inter na última temporada e acabou o campeonato à frente da até então eneacampeã Juventus . Zlatan Ibrahimovic , prestes a completar 40 anos de idade , é um dos destaques de um plantel que , noutros anos , contou com três antigos jogadores do FC Porto : Paulo Futre , André Silva e Diogo Dalot . |