77 de sócios que viviam situações complicadas . A Clemente Joaquim de Magalhães , que oferecera “ um quadro a óleo com o distintivo d ’ este clube ” e pedia que fosse aberta uma subscrição para a sua venda , “ por se encontrar em difíceis circunstâncias ”, a direção decidiu “ enviar-lhe cincoenta escudos ”, que em 2021 equivaleriam a cerca de 48 euros . O problema de José Moutinho , por incluir uma dimensão política , podia ser mais delicado . A ata da reunião regista : “ Recebida carta do associado d ’ este club , senhor José Moutinho , comunicando encontrar-se preso no Aljube de Lisboa , por motivos políticos , e solicitando que seja mantida a qualidade de sócio , enquanto durar aquela situação , visto que as circunstâncias precárias em que se encontra não lhe permitirem satisfazer as suas quotas ”. Mas quem era este homem ?
UM “ INCANSÁVEL DEMOLIDOR SOCIAL ” Nascido na freguesia de Numão , em Vila Nova de Foz Coa , em 1903 ou 1904 , José Augusto da Fonseca Moutinho já tinha descido o Douro até ao Porto em 1924 , quando , ainda muito jovem , aderiu ao novíssimo Partido Comunista Português , fundado três anos antes . Cedo se tornou uma das figuras mais relevantes da implantação do partido na cidade , integrando o núcleo duro da sua direção local – com Anastácio Ramos , António de Carvalho e António Nunes –, assumindo posições de relevo na imprensa socialista portuense – foi redator principal , editor e diretor do jornal Bandeira Vermelha – e representando a sua estrutura em iniciativas nacionais – foi um dos delegados ao II Congresso do PCP , realizado a 30 de maio de 1926 .
Com o advento da Ditadura casado e vivia na Travessa do Bom Militar , a atividade política de José Retiro , no Bonfim , junto à atual Moutinho , como a de milhares de estação de metro do Heroísmo . outros comunistas durante o meio Foi nos primeiros meses de 1932 século seguinte , ficou marcada que ocorreram os acontecimentos pela resistência ao poder e pelas que o conduziram à prisão pela perseguições movidas pelas quinta vez e que poderiam autoridades . Em 1927 , foi preso ter colocado em causa a sua pela primeira vez , por ser , de continuidade como sócio do FC acordo com o cadastro que a PIDE Porto . A 16 de fevereiro , foi detido elaboraria mais tarde , um “ agente na sequência de buscas à sua de ligação do Socorro Vermelho loja , onde além de vários livros Internacional ”. e revistas
No ano socialistas seguinte , seria foram encarcerado encontrados em mais do que postais com uma ocasião , imagens primeiro “ para de figuras averiguações ”, como Lenine , depois por Marx e Gorki .
“ estar implicado Interrogado – e no movimento provavelmente revolucionário torturado – nos e por tentativa dias seguintes , de assalto ao revelou vários
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GNR ”, enquanto sua biografia um dos política , mas é instigadores difícil apurar de uma se o que disse concentração era tudo popular verdade ou
António Figueiredo e Melo no Monte se reproduziu presidiu à reunião de Direção
Aventino , que uma narrativa lhe valeu uma previamente condenação a 180 dias de combinada . No retrato cadeia . A sua vida profissional que ficou traçado no seu mudaria entretanto . Em 1930 era cadastro , foi caracterizado identificado como empregado como um “ organizador e num quiosque da estação de orientador dos elementos São Bento , mas no ano seguinte comunistas ”, “ inteligente e já era proprietário de um submisso serventuário da 111 .ª estabelecimento na Rua de Sá da Internacional ” que “ defende Bandeira , a Livraria Moutinho , publicamente o regime onde , clandestinamente , vendia revolucionário das Repúblicas imprensa e literatura comunista , Soviéticas ”, “ nocivo à pacificação que também publicava – em 1932 , das classes trabalhadoras ”. a sua Editorial Moutinho deu à
Considerado “ perigoso ” e estampa uma edição do Manifesto “ apologista de meios violentos ”, Comunista de Friedrich Engels e incutia “ nos espíritos fracos Karl Marx . Por essa altura , já era a semente do ódio contra a ditadura ”. Apesar de “ exteriormente polido e bem vestido ”, era também um “ incansável demolidor social ”. Transferido em abril para o Aljube de Lisboa , seria libertado apenas em agosto . Até ao final da década de 30 viria a ser preso pelo menos mais duas vezes , passando uma temporada em Peniche .
A DECISÃO A direção do FC Porto podia não conhecer com detalhe em que é que consistia a atividade subversiva de um dos seus quase 4.000 sócios , mas isso é pouco relevante . A ata da reunião de 21 de julho regista que José Moutinho estava preso “ por motivos políticos ”, e não era difícil para qualquer elemento dos órgãos de gestão de uma instituição que já tinha grande relevância social perceber , em concreto , o que é que isso significava no Portugal daquele tempo . A decisão a tomar sobre o pedido do homem que temia perder a ligação formal ao clube assentava , por isso , em pressupostos claros : nas mãos da direção estava a possibilidade de deixar cair um sócio que era um adversário do regime – e um criminoso , segundo a conceção legal então vigente . A deliberação foi noutro sentido : “ Resolvido responder que prestamos ao conteúdo da sua carta a nossa melhor atenção e que tomando esta Direcção em consideração as razões que o obrigam a não satisfazer as suas mensalidades , resolveu anotar no livro de registo de sócios a sua auzência , esperando que , no seu regresso , procurará regularizar a sua situação adentro d ’ este club ”. Conscientemente , os representantes dos associados deram a um dos seus pares que tinha problemas conhecidos com as autoridades a possibilidade de manter o vínculo ao clube . Em 1932 , podia haver perseguições políticas em Portugal , mas não era no FC Porto .
REVISTA DRAGÕES JANEIRO 2021