Dragões #409 Dez 2020 | Page 65

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Numa sala de troféus transformada provisoriamente em espaço de conferências de imprensa , Jorge Nuno Pinto da Costa divertia-se a observar as fotografias de equipas históricas da CUF . O presidente do FC Porto reconhecia quase todos os jogadores e não deixava de comentar algumas das características que mais fixou . “ Um grande extremo esquerdo ”, notou depois de identificar Uria , um dos heróis das excelentes classificações na liga do clube do maior grupo industrial português nas décadas de 50 e 60 . O ambiente estava alegre e descontraído . No regresso ao velho Alfredo da Silva , 45 anos depois da última visita , o FC Porto tinha acabado de garantir a qualificação para a quarta eliminatória da Taça de Portugal .

O clima de festa , na verdade , já tinha algumas horas . Nos acessos ao estádio , algumas dezenas de portistas arriscaram quase furar , por breves minutos , o confinamento obrigatório a partir das 13h00 para poderem ver passar o autocarro dos vencedores da dobradinha . Quando a equipa entrou no recinto , foi confrontada com uma receção amigável e plena de classe : “ Bem-vindos , campeões ”, lia-se

numa tarja colocada em frente ao balneário . No exterior , o presidente do Fabril , Faustino Mestre , falava à comunicação social e juntava-se à luta pelo regresso do público aos estádios de futebol que tem sido encabeçada por Pinto da Costa : “ O senhor primeiro-ministro tem de acordar e deixar de ouvir as pessoas que anda a ouvir . É preciso não esquecer que a indústria do futebol alimenta muita gente , é das indústrias que dá mais emprego . Estão a matar as pessoas à fome ,
porque não têm emprego ”. No relvado , durante 90 minutos , houve Taça . Carraça estreou-se pelo FC Porto , Taremi e Felipe Anderson foram titulares pela primeira vez , Toni Martínez abriu o marcador com um fantástico pontapé de moinho , o avançado iraniano definiu o resultado final , os jogadores da equipa da casa – praticamente todos amadores – deram a luta que puderam , exibiram-se com brio e dignificaram o jogo . Os ingredientes estiveram lá quase todos , mas faltou o elemento que poderia ter elevado a atmosfera deste encontro para outro patamar : o público nas bancadas . Num estádio histórico , que preserva a mesma configuração que tinha quando a CUF participou
pela última vez na primeira divisão há mais de 40 anos e que tem espaço para mais de 20 mil espectadores , não puderam estar mais do que algumas dezenas de pessoas que faziam parte dos staffs das equipas , das forças da ordem e da comunicação social . Nas varandas dos prédios localizados nas imediações , mais alguns adeptos espreitavam o jogo como podiam . Em contraste , nos dias anteriores e nos que se seguiram , em espaços fechados e com muito menos condições de segurança , milhares de pessoas assistiram ao vivo a espetáculos musicais , de teatro e de comédia . As razões do poder político em relação ao futebol permanecem insondáveis . Mas podem mesmo acabar por matá-lo .
REVISTA DRAGÕES DEZEMBRO 2020