Dragões #408 Nov 2020 | Página 7

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O MÉRITO DE UNS , A INCOMPETÊNCIA DE OUTROS E A INDIGNAÇÃO QUE DEVERIA SER DE TODOS

Nas condições mais difíceis que se

possa imaginar , o futebol português continua a resistir à pandemia e o FC Porto continua a representá-lo ao mais alto nível na mais importante e mais difícil competição do mundo . A prestação da nossa equipa nas três primeiras jornadas da Liga dos Campeões só pode encher- -nos de orgulho . Perante a equipa mais cara do mundo , só uma sucessão de erros de arbitragem conseguiu vergar-nos . E nos dois jogos seguintes , frente a dois clubes muito bem dirigidos por treinadores portugueses , alcançámos duas vitórias claras que nos mantêm na luta pela qualificação para a fase seguinte e reforçaram o nosso estatuto de principal fornecedor de pontos para o ranking de Portugal na UEFA .
O jogo com o Olympiacos foi o único até agora , nesta temporada , em que pôde haver público no Estádio do Dragão . E aquilo a que assistimos foi a uma notável lição de capacidade de organização e de civismo . Os portistas regressaram a casa , apoiaram os jogadores , contribuíram para o resultado e não houve registo de um único problema . Se a abertura do estádio naquele encontro era um teste , como se disse , só se pode considerar que o FC Porto e os seus adeptos passaram com a maior das distinções . Uma semana depois , incompreensivelmente , voltámos a jogar à porta fechada frente ao Marselha . A UEFA autorizava que fosse ocupada 30 % da lotação do estádio nesse jogo , mas a Direção Geral da Saúde contentou-se com 0 %. Esta decisão é completamente absurda se compararmos com o que acontece noutras realidades . Sabemos que no verão houve público em touradas , comícios políticos , espetáculos de música e de comédia , alguns até com o Presidente da República e o primeiro-ministro na plateia . Sabemos que há pouco tempo houve uma corrida de fórmula 1 no Algarve com 27.500 pessoas a assistir . Sabemos que em breve haverá o congresso de um partido que até ajudou a aprovar o Orçamento do Estado . Mas o mais inaceitável , o maior exemplo da discriminação dedicada ao futebol , foi o que se passou no Porto , a mesma cidade onde não pôde haver público no jogo com o Marselha , dias depois desse encontro . Na Super Bock Arena – que , ao contrário do Estádio do Dragão , é um espaço fechado –, houve espetáculos do Paulo Gonzo , da Áurea e do Fernando Rocha com 40 % da lotação , um deles no mesmo domingo soalheiro em que o FC Porto recebeu o Portimonense com as bancadas vazias . E já foram autorizados mais oito eventos no mesmo local até ao final do mês . Ninguém é capaz de compreender que depois de tantas experiências com resultados positivos em vários estádios de futebol – recintos abertos com as melhores condições possíveis – se persista numa política que conduz à asfixia dos clubes e que é limitativa dos direitos dos adeptos , enquanto em relação às salas de espetáculos , muito menos seguras , são tomadas decisões de sentido oposto . Isto só é possível porque na origem destas posições está alguém que em janeiro afirmava que “ não há grande probabilidade de chegar um vírus destes a Portugal ” e que em março dizia às pessoas que não valia a pena usarem máscara , porque transmitia uma “ falsa sensação de segurança ”. Isto só é possível porque o primeiro-ministro continua a ser a única pessoa que leva a sério quem tem estas posições oscilantes , incompreensíveis e perigosas . Perante isto , quanto é que teremos de esperar para que mais gente do mundo do futebol recorra ao “ direito à indignação ” cunhado pelo saudoso Presidente Mário Soares ?
Jorge Nuno Pinto da Costa