49 derrotas , com vitórias expressivas e depois chegávamos ao play-off e à fase final e perdíamos nos pormenores . Por isso , sempre acreditei que um dia mais tarde isso iria acontecer . Nunca deixei de acreditar no FC Porto como equipa nem em mim como jogador .
O campeonato deste ano apresenta um novo formato a duas voltas com 16 equipas , em vez da habitual fase final ou do play-off . Qual dos três modelos lhe agrada mais ? Nos últimos anos temo-nos mostrado fortíssimos na fase regular . No entanto , acho que o play-off é algo especial . A envolvência do espetáculo é maior , há mais jogos grandes , o que atrai mais público e promove a modalidade . No entanto , prefiro jogar como vamos fazer este ano , a duas voltas , em que se vai dar o título à equipa mais regular . Se continuarmos com o mesmo foco , chegaremos ao fim com o objetivo principal conseguido .
O que explica a evolução do andebol do FC Porto desde a chegada do Magnus Andersson ao comando técnico ? Acho que o Magnus tem muita influência naquilo que foi uma mudança na mentalidade da secção e dos atletas . Porque mudar só a mentalidade dos atletas talvez não chegue , todo o meio envolvente do andebol tem que mudar essa mentalidade . Acho que ele tem um papel fundamental nisso . Tivemos uma primeira época em que as coisas estavam a correr bem e , como ele diz - e nós concordamos -, houve um clique no jogo com o Magdeburgo em que nós acreditámos que a Europa não era só um sonho ao fundo do túnel . Era algo que podíamos alcançar e fazer coisas boas . Na época passada foi igual , alcançámos algo que não nos foi atribuído por outras questões … Acabámos a fase regular em primeiro lugar , sem derrotas , e todos os campeonatos no universo do andebol foram atribuídos à equipa que estava em primeiro . Portugal foi o único país em que isso não aconteceu e como é lógico sentimo-nos injustiçados . Em vez de estarmos a lutar pelo bicampeonato estaríamos a lutar pelo tri .
À chegada ao Dragão logo afirmou que “ era difícil dizer não ao FC Porto ”. Porque é que é difícil ? Para as pessoas que conhecem o FC Porto é fácil de perceber porquê . É um clube que tem uma hegemonia grande no andebol , que vive de títulos e é uma exceção nesse sentido . Nos últimos dez ou quinze anos tem muito mais títulos do que os outros clubes . É um clube em que os adeptos , e as pessoas do Porto , são muito mais guerreiras e agarradas ao amor pela cidade e pelo clube . Isso nota-se dentro do campo , eles transmitem muito isso quando estão nas bancadas . Para além disso , a excelência do FC Porto está à vista de toda a gente . A competência e os objetivos do clube são bastante claros e ambiciosos . Qualquer atleta que queira jogar ao mais alto nível deve jogar no FC Porto .
Eu próprio procurei isso na altura em que surgiu a oportunidade . Volto a dizer que era fácil dizer que sim ao FC Porto . É um clube enorme , não só em Portugal como também na Europa . Não só pelos feitos no futebol , até porque está à vista de todos que o andebol tem acompanhado esse percurso .
“ Agora arrisco-me a jogar a Champions todos os anos , jogámos todos a um nível altíssimo no Europeu , a final four da Taça EHF foi algo que nenhum clube português tinha conseguido e só não fomos mais além por pormenores .”
Num curto espaço de tempo disputou uma final four da Taça EHF , o jogo de apuramento do quinto lugar no Europeu e qualificou-se para os oitavos da Champions . Considera ser este o melhor momento da sua carreira ? Considero os últimos anos como os melhores da minha carreira . Agora arrisco-me a jogar a Champions todos os anos , jogámos todos a um nível altíssimo no Europeu , a final four da Taça EHF foi algo que nenhum clube português tinha conseguido e só não fomos mais além por pormenores . Talvez por falta de experiência , porque entrámos na disputa da meia-final algo apáticos , a ver o que se estava a passar à nossa volta . Éramos um pouco os novatos que tinham acabado de chegar . Se tivéssemos mais experiência , certamente tínhamos chegado mais longe . O ano passado foi prova disso . Fizemos uma campanha incrível na Liga dos Campeões , infelizmente não nos deixaram continuar . Íamos apanhar uma equipa ( Aalborg ) que eu acho que era bastante acessível e tínhamos muitas hipóteses de passar à fase seguinte . Na fase seguinte teríamos , com certeza , o Kiel pela frente . Já tínhamos ganho em Kiel e perdido em casa apenas por um . Estávamos a jogar a um nível altíssimo , arrisco-me a dizer que , no ano passado , podíamos passar qualquer eliminatória até à final four .
Já este ano , na receção ao Elverum , estavam a ganhar por quatro golos ao intervalo , mas sofreram um parcial de 12-18 na segunda parte . Como explica essa derrota ? Entrámos mal , depois voltámos ao jogo e estivemos à frente por quatro golos . Na segunda parte deixámo-nos ultrapassar pela avalanche deles e acho que sentimos muito a ausência dos adeptos . Foi o primeiro jogo grande sem público e sentimos muito isso . Em condições normais , eu e os meus companheiros acreditamos que nunca teríamos perdido esse jogo . A certa altura , eles marcavam golos e ouvia-se muito o banco deles e a nossa equipa não se expressava tanto . Em condições normais , não teríamos perdido .
Acha que jogar à porta fechada tem prejudicado mais o FC Porto ou todas as equipas se ressentem de igual forma ? Falando por nós , sim . O público do FC Porto é muito especial , principalmente aqui no Dragão Arena . Nos jogos importantes para o campeonato e para a Liga dos Campeões eles ajudaramnos muitas vezes a ir buscar resultados e a manter o élan que tínhamos durante o jogo .
REVISTA DRAGÕES NOVEMBRO 2020