Dragões #406 Set 2020 | Seite 7

07 O FUTEBOL ASFIXIADO No momento em que está prestes a arrancar uma nova temporada, os sentimentos não podiam ser mais contraditórios. O entusiasmo pelo regresso é grande, como sempre, mais ainda por ostentarmos orgulhosamente os títulos de campeão nacional e vencedor da Taça de Portugal. A vontade de voltar a entrar em campo e construir novos triunfos não podia ser maior. Mas também não é possível esconder a desilusão pela aberração que continua a ser a ausência de público nas bancadas, uma decisão que prejudica todos: os adeptos, os jogadores, os clubes, o país no seu conjunto. Enquanto no futebol, no andebol, no basquetebol, no hóquei em patins e no voleibol os eventos têm de ser realizados à porta fechada, assistimos todos os dias nos telejornais a imagens que só nos podem espantar. As praças de touros do Sul de Portugal estão quase cheias. Os concertos de música e espetáculos de comédia têm plateias preenchidas. Também não falta gente às iniciativas políticas dos partidos e a grandes cerimónias religiosas. E, descontando o caso das torturas de animais, não é necessariamente mau que assim seja. Pelo contrário. É possível, como já se demonstrou, retomar alguma normalidade em atividades que implicam ajuntamentos, desde que sejam definidas regras claras, que a esmagadora maioria da população cumpre com zelo. Também pode ser assim no futebol e noutras modalidades, como se tem visto em França e noutros países. Infelizmente, no que toca ao desporto, as nossas autoridades padecem de dois grandes problemas: são ignorantes e oportunistas. Ignorantes porque não sabem reconhecer a importância social e económica de atividades que envolvem milhões de pessoas, como espectadores e como praticantes, que pagam muitos milhões de euros em impostos e que contribuem para o prestígio do país. E são oportunistas porque há certos momentos em que nunca faltam. Seja nas finais da Taça, nos jogos da seleção ou nas alturas em que se assinala algum feito relevante de um desportista português, lá estão sempre os políticos prontos para aparecer e para se colarem ao sucesso que a maior parte das vezes não ajudaram a construir. Nos momentos difíceis, quando em causa pode estar a sobrevivência de centenas de clubes e a continuidade da prática desportiva por milhares de pessoas, fazem de conta que não é nada com eles e só agravam a asfixia que podiam mitigar. Caminham para ficar na história como os carrascos do desporto nacional. Jorge Nuno Pinto da Costa