Dragões #401 Abr 2020 | Page 54

54 C M Y CM MY competições, a arbitragem e a justiça desportiva estiveram sempre concentradas em Lisboa, com a esmagadora maioria dos responsáveis por estas áreas a ser recrutada entre adeptos e dirigentes do Belenenses, do Benfica e do Sporting, como foram os casos de António Martins Canaverde, Francisco Cazal Ribeiro, Justino Pinheiro Machado e Francisco Mega. Após 1974, a arquitetura institucional do futebol português evoluiu numa direção em que cresceu o poder das associações distritais e dos clubes, que chegaram ao ponto de constituir a Liga e de serem eles próprios a organizar as principais competições profissionais. A geografia do poder desportivo assumiu, assim, um caráter mais democrático e descentralizado. É certo que está por apurar, de forma irrefutável, de que benefícios concretos usufruíram os clubes de Lisboa durante o REVISTA DRAGÕES ABRIL 2020 Estado Novo, mas há pistas para seguir. Por exemplo: confirma-se a denúncia de antigos jogadores do FC Porto de que os atletas do Benfica e do Sporting eram beneficiados no recrutamento para a Guerra Colonial? Também a economia portuguesa mudou profundamente após o 25 abril. Nos anos anteriores a 1974, houve um forte crescimento, alicerçado sobretudo em monopólios de grandes grupos industriais e financeiros, a maioria com sede em Lisboa e forte implantação em torno da capital. Os mais importantes eram o grupo CUF, o grupo Champalimaud e o grupo Espírito Santo. Depois da revolução, foram globalmente desfeitos e grande parte das empresas que detinham foram nacionalizadas. Estas mudanças fizeram-se sentir, particularmente, na península de Setúbal. Já o Norte consolidou-se, nos últimos 46 anos, como a região mais habitada, mais industrializada, mais produtora e mais exportadora do país. Assim, parece que o que aconteceu ao nível do futebol terá sido um ajustamento da geografia desportiva em função da geografia económica. Por um lado, ganharam força clubes da região economicamente mais dinâmica: à cabeça, o FC Porto; num segundo plano, o Boavista, o Sporting de Braga e o Vitória de Guimarães; num patamar mais abaixo, o Rio Ave, o Paços de Ferreira e vários outros da Área Metropolitana do Porto e do Minho. Por outro, perderam força os clubes de Lisboa que não tinham capacidade para resistir ao efeito de eucalipto do Benfica e do Sporting, como o Belenenses, o Atlético e o Oriental, além dos da península de Setúbal que foram mais afetados pela queda dos grandes grupos industriais, como o Barreirense e a CUF. Finalmente, há que ter em conta que cada história é uma história, e que a evolução de cada clube não pode ser dissociada de fatores muito específicos que nem sempre se relacionam diretamente com a revolução, mas que acabam por ter mais condições para vingar graças às conquistas de abril. O caso do FC Porto é paradigmático. O sucesso do clube em democracia deveu- se em grande medida à ação de figuras como Jorge Nuno Pinto da Costa e José Maria Pedroto, que não nasceram com a democracia. Na verdade, Pedroto já era um treinador prestigiado desde os anos 60, enquanto Pinto da Costa começou a afirmar-se como dirigente pela mesma altura. Mas é indiscutível que o crescimento do FC Porto, a partir dos anos 70, além de alicerçado em grande competência desportiva, decorreu da capacidade de produção de um discurso e de uma postura de combate que colocava em causa os poderes concentrados em Lisboa. Essa dimensão ideológica que Pinto da Costa e Pedroto imprimiram ao FC Porto nunca poderia ter sido explorada antes do 25 de abril. CY CMY K