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competições, a arbitragem e a
justiça desportiva estiveram
sempre concentradas em Lisboa,
com a esmagadora maioria dos
responsáveis por estas áreas a
ser recrutada entre adeptos e
dirigentes do Belenenses, do
Benfica e do Sporting, como
foram os casos de António
Martins Canaverde, Francisco
Cazal Ribeiro, Justino Pinheiro
Machado e Francisco Mega. Após
1974, a arquitetura institucional do
futebol português evoluiu numa
direção em que cresceu o poder
das associações distritais e dos
clubes, que chegaram ao ponto de
constituir a Liga e de serem eles
próprios a organizar as principais
competições profissionais. A
geografia do poder desportivo
assumiu, assim, um caráter mais
democrático e descentralizado.
É certo que está por apurar,
de forma irrefutável, de que
benefícios concretos usufruíram
os clubes de Lisboa durante o
REVISTA DRAGÕES ABRIL 2020
Estado Novo, mas há pistas para
seguir. Por exemplo: confirma-se
a denúncia de antigos jogadores
do FC Porto de que os atletas
do Benfica e do Sporting eram
beneficiados no recrutamento
para a Guerra Colonial?
Também a economia portuguesa
mudou profundamente após o
25 abril. Nos anos anteriores a
1974, houve um forte crescimento,
alicerçado sobretudo em
monopólios de grandes grupos
industriais e financeiros, a maioria
com sede em Lisboa e forte
implantação em torno da capital.
Os mais importantes eram o grupo
CUF, o grupo Champalimaud e o
grupo Espírito Santo. Depois da
revolução, foram globalmente
desfeitos e grande parte das
empresas que detinham foram
nacionalizadas. Estas mudanças
fizeram-se sentir, particularmente,
na península de Setúbal. Já o
Norte consolidou-se, nos últimos
46 anos, como a região mais
habitada, mais industrializada,
mais produtora e mais exportadora
do país. Assim, parece que o que
aconteceu ao nível do futebol
terá sido um ajustamento da
geografia desportiva em função
da geografia económica. Por um
lado, ganharam força clubes da
região economicamente mais
dinâmica: à cabeça, o FC Porto;
num segundo plano, o Boavista,
o Sporting de Braga e o Vitória
de Guimarães; num patamar
mais abaixo, o Rio Ave, o Paços
de Ferreira e vários outros da
Área Metropolitana do Porto e
do Minho. Por outro, perderam
força os clubes de Lisboa que não
tinham capacidade para resistir
ao efeito de eucalipto do Benfica
e do Sporting, como o Belenenses,
o Atlético e o Oriental, além dos
da península de Setúbal que
foram mais afetados pela queda
dos grandes grupos industriais,
como o Barreirense e a CUF.
Finalmente, há que ter em conta
que cada história é uma história, e que
a evolução de cada clube não pode ser
dissociada de fatores muito específicos
que nem sempre se relacionam
diretamente com a revolução, mas que
acabam por ter mais condições para
vingar graças às conquistas de abril. O
caso do FC Porto é paradigmático. O
sucesso do clube em democracia deveu-
se em grande medida à ação de figuras
como Jorge Nuno Pinto da Costa e José
Maria Pedroto, que não nasceram com a
democracia. Na verdade, Pedroto já era
um treinador prestigiado desde os anos
60, enquanto Pinto da Costa começou
a afirmar-se como dirigente pela
mesma altura. Mas é indiscutível que
o crescimento do FC Porto, a partir dos
anos 70, além de alicerçado em grande
competência desportiva, decorreu
da capacidade de produção de um
discurso e de uma postura de combate
que colocava em causa os poderes
concentrados em Lisboa. Essa dimensão
ideológica que Pinto da Costa e Pedroto
imprimiram ao FC Porto nunca poderia
ter sido explorada antes do 25 de abril.
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