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O facto de o futebol português dos
últimos 46 anos ser muito diferente
do que antecedeu o 25 de abril
de 1974 é notório e consensual. A
leitura sobre as transformações,
contudo, presta-se a discussões e
polémicas. Haverá quem alegue,
e com razão, que o fenómeno
não é exclusivamente nacional, e
que também no resto do mundo
o desporto da terceira década
do século XXI já tem pouco em
comum com o que era praticado
na primeira metade dos anos
70. Haverá quem reconheça as
mudanças e não as relacione com
o cenário político, económico e
social em que aconteceram ou
não reconheça a sua influência –
são posições negacionistas que
fazem do futebol uma espécie de
ilha desligada de tudo. Na mesma
linha, haverá ainda quem procure
interpretar a história à luz de
teorias da conspiração, que não
merecem ser discutidas por não
terem sustentação na realidade e
serem claramente insuficientes
para explicar fenómenos muito
abrangentes e complexos. Neste
trabalho, pretende-se apresentar
uma visão global do que mudou
no futebol português desde o 25
de abril. A observação da geografia
do desporto de elite será o ponto
de partida para a identificação
de transformações, que tentarão
ser compreendidas através do
cruzamento com as principais
linhas de força da história do
Portugal democrático. Este texto
não é centrado num único clube,
apesar de se olhar mais de perto
para o FC Porto, e tem um certo
caráter experimental e provisório,
na medida em que algumas das
hipóteses avançadas poderão
ser confirmadas, alteradas ou
infirmadas se vierem a concretizar-
se os estudos sobre a evolução
institucional, económica e
REVISTA DRAGÕES ABRIL 2020
social de clubes e organismos
do futebol que são tão escassos
na nossa historiografia.
A VIRAGEM A NORTE
DO FUTEBOL PORTUGUÊS
O elenco das equipas que
participaram na principal
competição nacional antes e
depois do 25 de abril é um primeiro
indício de grande transformação
[quadro 1]. Entre 1934/35 e
1973/74, ou seja, durante o Estado
Novo, os distritos de Lisboa e de
Setúbal concentravam 49% das
presenças na primeira divisão.
Nos últimos 46 anos, esse valor
baixou drasticamente para 28%.
Em sentido inverso, o peso das
equipas dos distritos de Braga e
do Porto aumentou bastante: de
29% em ditadura passou para
41% em democracia. Após 1974
regista-se ainda o alargamento da
geografia do campeonato, com as
primeiras participações na liga de
formações dos Açores, da Madeira,
de Viseu e de Vila Real. Só em
Évora é que se regista o inverso:
houve presenças na competição
durante o Estado Novo, mas nunca
depois da revolução. Este indicador
tem a vantagem de permitir um
desvio à habitual concentração
das análises na realidade
exclusiva dos três maiores clubes
portugueses, e não é o único a
demonstrar que o espectro da
mudança é muito mais alargado.
Se excluirmos o FC Porto, o Benfica
e o Sporting da classificação e
verificarmos qual é que seria a
melhor equipa em cada época
[quadro 2], constata-se que antes
de 1974 os clubes de Lisboa e de
Setúbal alcançaram o estatuto de
melhor para lá dos grandes em 85%
das temporadas, enquanto os do
Porto e de Braga só chegavam aos
10%. Em democracia, houve uma
troca de papéis: equipas do Porto
e de Braga destacaram-se em 90%
dos anos, enquanto as de Lisboa
e de Setúbal apenas em 5%. Em
termos concretos e olhando apenas
para os grandes números, assistiu-
se a uma diminuição drástica do
sucesso do Belenenses e a uma
grande melhoria das performances
do Boavista, do Sporting de Braga