Dragões #401 Abr 2020 | Page 52

52 O facto de o futebol português dos últimos 46 anos ser muito diferente do que antecedeu o 25 de abril de 1974 é notório e consensual. A leitura sobre as transformações, contudo, presta-se a discussões e polémicas. Haverá quem alegue, e com razão, que o fenómeno não é exclusivamente nacional, e que também no resto do mundo o desporto da terceira década do século XXI já tem pouco em comum com o que era praticado na primeira metade dos anos 70. Haverá quem reconheça as mudanças e não as relacione com o cenário político, económico e social em que aconteceram ou não reconheça a sua influência – são posições negacionistas que fazem do futebol uma espécie de ilha desligada de tudo. Na mesma linha, haverá ainda quem procure interpretar a história à luz de teorias da conspiração, que não merecem ser discutidas por não terem sustentação na realidade e serem claramente insuficientes para explicar fenómenos muito abrangentes e complexos. Neste trabalho, pretende-se apresentar uma visão global do que mudou no futebol português desde o 25 de abril. A observação da geografia do desporto de elite será o ponto de partida para a identificação de transformações, que tentarão ser compreendidas através do cruzamento com as principais linhas de força da história do Portugal democrático. Este texto não é centrado num único clube, apesar de se olhar mais de perto para o FC Porto, e tem um certo caráter experimental e provisório, na medida em que algumas das hipóteses avançadas poderão ser confirmadas, alteradas ou infirmadas se vierem a concretizar- se os estudos sobre a evolução institucional, económica e REVISTA DRAGÕES ABRIL 2020 social de clubes e organismos do futebol que são tão escassos na nossa historiografia. A VIRAGEM A NORTE DO FUTEBOL PORTUGUÊS O elenco das equipas que participaram na principal competição nacional antes e depois do 25 de abril é um primeiro indício de grande transformação [quadro 1]. Entre 1934/35 e 1973/74, ou seja, durante o Estado Novo, os distritos de Lisboa e de Setúbal concentravam 49% das presenças na primeira divisão. Nos últimos 46 anos, esse valor baixou drasticamente para 28%. Em sentido inverso, o peso das equipas dos distritos de Braga e do Porto aumentou bastante: de 29% em ditadura passou para 41% em democracia. Após 1974 regista-se ainda o alargamento da geografia do campeonato, com as primeiras participações na liga de formações dos Açores, da Madeira, de Viseu e de Vila Real. Só em Évora é que se regista o inverso: houve presenças na competição durante o Estado Novo, mas nunca depois da revolução. Este indicador tem a vantagem de permitir um desvio à habitual concentração das análises na realidade exclusiva dos três maiores clubes portugueses, e não é o único a demonstrar que o espectro da mudança é muito mais alargado. Se excluirmos o FC Porto, o Benfica e o Sporting da classificação e verificarmos qual é que seria a melhor equipa em cada época [quadro 2], constata-se que antes de 1974 os clubes de Lisboa e de Setúbal alcançaram o estatuto de melhor para lá dos grandes em 85% das temporadas, enquanto os do Porto e de Braga só chegavam aos 10%. Em democracia, houve uma troca de papéis: equipas do Porto e de Braga destacaram-se em 90% dos anos, enquanto as de Lisboa e de Setúbal apenas em 5%. Em termos concretos e olhando apenas para os grandes números, assistiu- se a uma diminuição drástica do sucesso do Belenenses e a uma grande melhoria das performances do Boavista, do Sporting de Braga