FUTEBOL
OUTUBRO 2026 REVISTA DRAGÕES
Um capitão também se reconhece à mesa, na capacidade de juntar amigos, de prolongar uma conversa, de fazer com que pessoas de clubes e até de desportos diferentes queiram estar por perto. Na antestreia de“ O Capitão”, André Villas- Boas falou desse Jorge Costa, capaz de unir tanta gente em torno“ de uma boa tainada, de uma boa conversa, de uma boa mesa”. O homem que os adversários aprenderam a respeitar em campo tinha também esse talento para reunir pessoas. Estreado a 16 de outubro, o documentário percorre a vida do antigo jogador e diretor do futebol profissional do FC Porto em quatro episódios, produzidos de raiz pelos meios internos do clube. Imagens inéditas e mais de meia centena de entrevistas exclusivas dão forma a um retrato para o qual contribuem familiares, amigos, antigos companheiros, treinadores e adversários. Se cada um conheceu uma parte de Jorge Costa, juntos ajudam a perceber por que razão a ausência pesa em tanta gente. David Costa encontrou nesse trabalho“ um espelho bem claro” da vida do pai. Ao agradecer à produção, ao Porto Canal e a todos os envolvidos, descreveu-o como“ uma pessoa amiga, próxima, que nunca deixava ninguém cair”. Acrescentoulhe os lugares que ocupava em casa e no afeto dos mais próximos:“ Um grande marido, pai, avô e portista.” A frase permite reconhecer, em gestos que raramente chegam às bancadas, a mesma disponibilidade para os outros. Para o filho, uma das maiores vitórias presentes no documentário é precisamente“ o facto de muita gente falar do Jorge, da pessoa”. Os títulos fazem parte do relato, mas, ao lado deles, fica o testemunho de quem recebeu ajuda, encontrou apoio ou alcançou um objetivo com Jorge Costa por perto.“ Esse legado é o que está verdadeiramente vincado neste documentário”, sublinhou David.
As vozes de uma vida
O percurso começa a ser reconstituído por quem o acompanhou nos primeiros passos. Nelson Matos, o primeiro treinador no FC Foz, e Álvaro Silva, que o orientou na formação do FC Porto, estão entre os entrevistados. A essas memórias juntamse as de Fernando Santos e José Mourinho, de antigos colegas como João Pinto, Vítor Baía, Aloísio, Sérgio Conceição e Costinha, e de jogadores que o conheceram como adversário e companheiro de seleção, entre eles João Vieira Pinto, Sá Pinto, Pauleta e Nuno Gomes. A diversidade dos testemunhos permite acompanhar diferentes idades, responsabilidades e relações. O jovem que procurava um lugar no futebol tornou-se uma referência num balneário habituado a ganhar, capitão de conquistas internacionais, treinador e, mais tarde, responsável pelo futebol do clube onde cresceu. Ao longo desse caminho, deixou histórias que agora são contadas por quem as viveu com ele. Participam também no documentário André Villas-Boas, Luís Montenegro, Gianni Infantino e Pedro Proença. A dimensão pública de Jorge Costa cruzase com as recordações da família e dos amigos próximos, num trabalho que procura abranger todo o percurso. Na antestreia, o presidente do FC Porto destacou essa atenção à“ humanidade do Jorge Costa, enquanto pessoa e enquanto jogador” e a uma amizade que atravessava rivalidades. A presença do antigo voleibolista Miguel Maia era um dos exemplos que escolheu para a ilustrar. Os números ajudam a medir a carreira: 383 jogos pelo FC Porto e mais de vinte títulos de azul e branco. Nenhum outro capitão do clube ergueu tantos troféus internacionais. A Taça UEFA, a Liga dos Campeões e a Taça Intercontinental fazem parte das imagens pelas quais será sempre reconhecido, são momentos de uma felicidade coletiva que a memória dos adeptos guarda com Jorge Costa em primeiro plano. O documentário acompanha também a saída, os regressos e a carreira de treinador. Em 2024, voltou ao FC Porto para assumir funções na direção do futebol, mas a morte súbita, a 5 de agosto de 2025, interrompeu essa nova etapa e deixou o clube sem uma presença a que se tinha habituado de novo. Recordá-la continua a exigir muito de quem lhe era mais próximo. André Villas-Boas agradeceu à família a possibilidade de manter viva essa memória, reconhecendo a emoção que um trabalho desta natureza traz a quem perdeu um marido, um pai ou um avô.
Para quem vem depois
O Auditório José Maria Pedroto reuniu, na antestreia, a Direção do FC Porto, familiares, amigos e antigos companheiros e treinadores. Fernando Santos, Vítor Baía, Hélder Postiga, Ricardo Fernandes e João Vieira Pinto estiveram entre os presentes, tal como Domingos Paciência, que falou da“ nostalgia e saudade” com que reviu histórias e momentos partilhados com“ um ser humano excelente”. O antigo avançado deixou ainda um desejo que dá sentido à própria realização do documentário: que chegue a muitas gerações e lhes permita conhecer Jorge Costa e“ a forma como ele marcou a vida de muitas pessoas”. Para quem o viu jogar, será uma oportunidade de recordar e descobrir outras facetas. Para quem chegou depois, pode ser o princípio de uma relação com um capitão que conhece das fotografias, das imagens de arquivo ou das conversas em casa. Disponível no YouTube do FC Porto e com exibição no Porto Canal,“ O Capitão” prolonga o trabalho de homenagem e preservação da memória já desenvolvido com“ José Maria Pedroto – Um Homem Superior” e“ Fernando Gomes: Nascido para Marcar”. Desta vez, são quatro episódios para voltar a ouvir falar de Jorge Costa, reconhecer-lhe os gestos e conhecer melhor as pessoas que o acompanharam.
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