TEMA DE CAPA
OUTUBRO 2026 REVISTA DRAGÕES
Fernanda Ribeiro tinha 16 anos quando recebeu o primeiro Dragão de Ouro. A 17 de janeiro de 1986, a cerimónia decorria no Hotel Infante Sagres e o prémio distinguia-a como Atleta Jovem do Ano. Dez anos depois, ganharia os 10.000 metros nos Jogos Olímpicos de Atlanta. Vista à distância de quatro décadas, aquela primeira lista de premiados já continha uma parte do futuro do FC Porto. O presente também estava bem representado. Fernando Gomes, que acabara de conquistar a segunda Bota de Ouro, foi o primeiro Futebolista do Ano. Aurora Cunha recebeu a distinção de Atleta do Ano e Artur Jorge a de Treinador. O hóquei em patins e a natação também tiveram lugar entre os primeiros premiados: Cristiano Pereira foi distinguido como Atleta de Alta Competição do Ano e Rui Borges como Atleta Amador do Ano. Os prémios reportavam-se à época de 1984 / 85, com títulos nacionais no futebol e no hóquei em patins e a vitória de Aurora na Taça do Mundo de Estrada. A primeira Taça dos Campeões Europeus do futebol ainda estava por ganhar. Nessa noite, foram entregues 12 Dragões de Ouro. Na lista figuravam também o seccionista de ténis de mesa Antero Rebelo, o funcionário Armando Plácido, distinguido a título póstumo, e os sócios Walter Morais e Espregueira Mendes. Pinto da Costa recebeu o prémio de Dirigente do Ano e o Varzim, delegação n.º 1 do FC Porto, foi eleito Filial do Ano. Logo na estreia, o reconhecimento percorria diferentes lugares do clube, do campo aos serviços, da direção às bancadas, e chegava também às filiais. Essa amplitude ajuda a explicar a duração dos prémios. Um clube precisa de quem ganha, de quem ensina a ganhar, de quem organiza o trabalho e de quem aparece para apoiar. Ao dar nome e rosto a esses contributos, os Dragões de Ouro tornam visível uma parte da vida portista que os resultados, por si só, deixam por contar. O funcionário e o sócio entram na mesma história em que se encontram os grandes campeões.
Os nomes que voltam
Alguns percursos permitem acompanhar a própria transformação do FC Porto. Fernando Gomes foi distinguido como futebolista na primeira edição e como dirigente em 2021, quando trabalhava na formação. Em 2023, já depois da sua morte, o Dragão de Ouro Recordação foi recebido pelo filho, Martim, com o Coliseu a aplaudir de pé o duplo vencedor da Bota de Ouro. Entre os golos, a transmissão de conhecimento e a homenagem, a gala acompanhou diferentes etapas de uma ligação ao clube. Artur Jorge também pertence a esse grupo de nomes que atravessam décadas. Treinador do Ano em 1986, recebeu a título póstumo o Dragão de Ouro de Honra em 2024, entregue à mulher e à filha. Na mesma edição, Madjer foi distinguido com o prémio Vintage. As duas homenagens devolveram aos protagonistas de Viena um lugar de destaque perante uma geração de adeptos que já nasceu depois daquela vitória europeia. A longevidade da gala faz-se destes regressos e das estreias que se lhes seguem. O jovem premiado pode voltar como figura consagrada, um atleta pode tornar-se treinador ou dirigente, quem deixou de competir continua a ter lugar na memória coletiva, e a passagem dos anos acrescenta significado a uma estatueta recebida no início de carreira. Fernanda Ribeiro e Sérgio Conceição, com quatro Dragões de Ouro cada, são dois dos exemplos mais expressivos dessa relação
QUARENTA ANOS DEPOIS, OS DRAGÕES DE OURO CONTINUAM A JUNTAR NO MESMO PALCO OS GRANDES CAMPEÕES E QUEM, NOS SERVIÇOS OU NAS BANCADAS, TAMBÉM FAZ PARTE DAS VITÓRIAS.
entre promessa e confirmação, e a esse lote restrito juntou-se Diogo Costa, que recebeu o quarto galardão na gala de 7 de outubro. Jorge Nuno Pinto da Costa também foi distinguido por quatro vezes: como Dirigente do Ano na primeira edição, em 1986, e com os Dragões de Honra de 1996, 2013 e 2025. O último, atribuído a título póstumo, fez do antigo presidente a única personalidade distinguida por três vezes com o galardão de Honra. O trompete de António Lourenço faz parte da memória sonora do entretanto desaparecido Estádio das Antas e, em 2024, o Dragão de Ouro de Sócio do Ano distinguiu o homem por trás de um som que várias gerações de portistas aprenderam a reconhecer. Depois de tantos anos a puxar pelos outros, era a sua vez de receber o aplauso na mesma noite em que foram premiados Diogo Costa e Galeno. É nessa proximidade entre percursos tão diferentes que os Dragões de Ouro ganham uma dimensão particular. Cada categoria acrescenta uma pessoa ao retrato do FC Porto e convida a conhecer o trabalho que a levou até ali, podendo o nome mais esperado dividir a atenção com uma história que boa parte do público acaba de descobrir. Uma gala com quatro décadas tem sempre alguma coisa para apresentar pela primeira vez.
Outros palcos, mais participação
Ao longo destes 40 anos, a cerimónia mudou de sala e de escala. Depois do Hotel Infante Sagres, passou por espaços como o Pavilhão Afonso Pinto de Magalhães, o Palácio da Bolsa, os Casinos de Espinho e da Póvoa, a Alfândega do Porto, o Coliseu, a Super Bock Arena e o Dragão Arena. A geografia da gala acompanha a relação do clube com a cidade e a região. Cada lugar acrescentou um cenário às fotografias que agora permitem reconstituir a sua história. O formato também teve de responder às circunstâncias. Em 2020, as restrições da pandemia de covid-19 impediram a realização da gala habitual, mantendo-se a atribuição dos prémios, que coincidiu com o dia de aniversário do FC Porto. Em 2021, a entrega decorreu na Tribuna VIP do Estádio do Dragão, numa cerimónia reduzida e com poucos convidados. São dois momentos que aconselham a distinguir a história dos galardões da realização do espetáculo, porque o reconhecimento encontrou maneira de continuar mesmo quando reunir uma grande plateia deixou de ser possível. Mais recentemente, a mudança chegou à escolha dos vencedores. Em 2024, os sócios foram chamados, pela primeira vez, a votar em três categorias: Futebolista, Modalidades de Pavilhão e Sócio. Passaram a participar diretamente numa decisão que até então acompanhavam como público. Essa abertura trouxe à gala uma nova forma de envolvimento, dando aos associados a possibilidade de transformar a preferência num prémio. Quarenta anos depois da estreia, a 39.ª edição levou os Dragões de Ouro de volta à Super Bock Arena, a 7 de outubro, depois das cerimónias de 2019 e 2024. A lista dos distinguidos voltou a crescer, juntando outros percursos aos que começaram a ser reconhecidos em 1986. A longevidade da gala também se explica por esta capacidade de dar aos protagonistas de cada geração um lugar numa história que os portistas conhecem pelos nomes. Em 1986, Fernanda Ribeiro recebeu um prémio pelo que já tinha feito, com quase toda a carreira por correr. Hoje, aquele Dragão de Ouro pode ser visto à luz de tudo o que veio depois. Entre os nomes que subiram agora ao palco, talvez esteja alguém que, daqui a alguns anos, nos faça
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