A defesa do Norte e a ligação ao FC Porto cruzam-se no percurso de Ludgero Marques, empresário e dirigente associativo que o clube distinguiu com o Dragão de Ouro de Sócio do Ano em 1999.
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SETEMBRO 2026 REVISTA DRAGÕES
O
Dragão de Ouro que Ludgero Marques recebeu em 1999 distinguia o Sócio do Ano. Num percurso marcado por responsabilidades empresariais e condecorações nacionais, aquele prémio tinha o significado particular do reconhecimento do clube que foi sempre o dele. O FC Porto homenageava um dos seus, um portista cuja ligação se estendeu à participação nos órgãos sociais e no Conselho Consultivo da SAD. É também essa parte da vida de Ludgero Marques que fica na memória de quem dele se despediu. Ao manifestar consternação pela morte e apresentar condolências à família e aos amigos, o FC Porto lembrou precisamente essa relação que acrescentou ao vínculo de sócio uma dimensão de responsabilidade na vida do clube. Nascido a 26 de março de 1938, em Santa Maria da Feira, Ângelo Ludgero da Silva Marques encontrou cedo na família o contacto com a atividade industrial. O pai, José Marques, dirigia uma fábrica de ferragens em Rio Meão e foi ali que o futuro engenheiro começou a imaginar outras possibilidades para o negócio. Formou-se em Engenharia Mecânica na Universidade do Porto e regressou à empresa com vontade de aplicar o que tinha aprendido e de pôr à prova as suas ideias. Uma delas ficou registada num perfil publicado pelo jornal Público em 2013, posteriormente reproduzido no livro“ Santa Maria da Feira – Uma Terra de Dragões”: onde se produziam oito fechaduras por hora, queria demonstrar que era possível fazer 60. A proposta encontrou resistências, mas revela a ambição com que encarava o trabalho. Esse impulso de transformação acompanhou o crescimento da Cifial, empresa que continua em atividade e que, sob a sua liderança, diversificou produtos, apostou no design e alargou a presença internacional. Às ferragens juntaram-se torneiras e cerâmica, com atividade comercial em mercados como os Estados Unidos e a Inglaterra. Da fábrica, a intervenção estendeuse às associações. Depois de assumir responsabilidades na representação dos industriais da metalurgia, da metalomecânica e das ferragens, chegou, em 1985, à presidência da Associação Industrial Portuense, mais tarde Associação Empresarial de Portugal. Ficou durante 23 anos, até 2008. Ao longo desse período, a defesa das empresas ganhou uma voz reconhecível e a associação atravessou, como recordou na despedida,“ um dos períodos de maior transformação e afirmação da instituição”. A Exponor e o Europarque permitem dar uma medida concreta a essas palavras. Sob a liderança de Ludgero Marques, a AEP concebeu e construiu, nos anos 80 do século passado, o recinto de feiras e congressos de Matosinhos, então o maior do país. Na década seguinte, promoveu o Europarque, em Santa Maria da Feira. Os dois projetos deram ao Norte condições para receber grandes encontros e às empresas novos espaços para mostrar produtos, estabelecer contactos e procurar mercados. A região ganhava capacidade de atrair a atenção que tantas vezes reclamava. Era uma causa que o mobilizava.“ Regionalista convicto”, chamou-lhe a Confederação Empresarial de Portugal, onde também exerceu funções dirigentes. No retrato publicado em 2013, o próprio explicava a sua ação com uma frase direta:“ O Norte não tinha capacidade de intervenção.” O desconforto com essa falta de influência ajuda a compreender a persistência com que procurou dar maior peso à região no debate público. As feiras, os congressos e a representação empresarial eram formas concretas de a fazer participar. Essa defesa do Norte dá ao seu percurso uma ressonância que os portistas reconhecem. A afirmação de uma cidade e de uma região faz parte da história do FC Porto, e a ambição de alcançar projeção para lá das suas fronteiras também. Na biografia de Ludgero Marques, a atividade empresarial e a ligação ao clube encontram-se nesse horizonte comum, com uma ligação que ganhou expressão no Conselho Consultivo da SAD. A experiência do empresário encontrava também espaço na vida portista. O reconhecimento público acompanhou esse caminho. Recebeu a Grã-Cruz do Mérito Industrial, em 1995, e o grau de Grande-Oficial da Ordem do Infante D. Henrique, em 1999. Nesse mesmo ano, o Dragão de Ouro acrescentou às condecorações nacionais a homenagem do seu clube. Ao recordá-lo, o clube recupera essa relação e o lugar que lhe reservou entre os seus homenageados. A obra de Ludgero Marques continuará a ser evocada através das empresas e dos projetos que ajudou a desenvolver. Na memória portista fica também o homem que participou na vida do clube e que este escolheu distinguir como Sócio do Ano. Entre os muitos títulos que recebeu, aquele dizia, de forma simples, a que clube pertencia.
A defesa do Norte e a ligação ao FC Porto cruzam-se no percurso de Ludgero Marques, empresário e dirigente associativo que o clube distinguiu com o Dragão de Ouro de Sócio do Ano em 1999.
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