Dragões #478 Set 2026 | Page 47

EM FORMAÇÃO
SETEMBRO 2026 REVISTA DRAGÕES

Quando soube que tinha sido eleito o melhor jogador do Mundial, Mateus correu para a bancada. Os pais começaram a chorar e ele também. A cena diz muito sobre o médio: no momento mais individual de 2025, a primeira reação foi procurar quem o tinha acompanhado desde o início. A explicação para o prémio aponta no mesmo sentido.“ O segredo foi pensar na equipa e não naquilo que consigo fazer sozinho”, explicou por ocasião da renovação. No Catar, essa relação entre o singular e o coletivo valeu quatro golos, duas assistências e oito jogos até ao primeiro título mundial português no escalão. Terminada a final, recebeu das mãos de Xavi Hernández a Bola de Ouro da FIFA e entrou numa lista onde já estavam Cesc Fàbregas, Toni Kroos e Phil Foden. Menos de dez meses depois, Mateus renovou até 2031. O contrato prolonga uma ligação com mais de uma década e altera-lhe a natureza. Já não se trata apenas de um jogador da formação a subir escalões, mas de um profissional que o FC Porto quer continuar a formar.

A bola venceu a piscina Nascido no Porto a 10 de maio de 2008, Mateus entrou no desporto antes de aprender a andar. Aos nove meses, os pais inscreveram-no na natação, mas a vontade do filho seguiu noutra direção. Segundo a mãe, arranjava desculpas para não voltar à piscina; quando apareceu uma bola, deixaram de ser precisas. Adriano Mide, o pai, foi pivô de futsal e é hoje treinador do Modicus. O filho escolheu um campo maior, começou na Dragon Force e mudou-se depois para o Olival. Jogava como ponta de lança quando chamou a atenção de Fernando Gomes. O duplo vencedor da Bota de Ouro reconheceu-lhe o instinto perto da baliza, mas o percurso trataria de lhe alargar o raio de ação. Estreou-se pelos sub-15 poucas semanas depois de completar 13 anos. Em 2021 / 22 marcou 12 golos em 13 jogos; na época seguinte, já nos sub- 17, somou 13 em 30. Os números ainda descreviam um finalizador, mas a evolução transformou-o num médio capaz de combinar em espaços curtos e encontrar o último passe sem perder a relação com o golo. A primeira chamada aos sub-19 surgiu em janeiro de 2025, ainda com 16 anos. Quatro meses depois, Portugal conquistou o Europeu de sub-17 na Albânia. Mateus somou o primeiro título de um ano que ainda lhe reservava uma dimensão maior, ao lado de quatro companheiros de clube( Martim Chelmik, Yoan Pereira, Bernardo Lima e Duarte Cunha) que também renovaram até 2031.
Ganhar antes de chegar O Mundial confirmou a qualidade e aumentou a escala, o reconhecimento projetou-lhe o nome, mas não antecipou o resto do caminho. A estreia profissional só chegou em janeiro de 2026, no Seixal, diante do Benfica B, e a Segunda Liga apresentou-lhe outro jogo.“ Comecei a defrontar adversários mais físicos e com mais experiência”, recorda. Foi preciso descobrir outro tempo para receber, decidir e proteger a bola. O talento não perdeu espaço, ganhou novas perguntas. Na segunda metade da época, participou em 16 jogos da equipa B, marcou duas vezes e fez três assistências. O primeiro golo surgiu em Faro e foi celebrado à maneira de Vitinha, outro médio formado no Olival. A imagem aproximou-os, mas o percurso terá de dar a Mateus um lugar próprio: as comparações ajudam a apresentar um jogador, não a defini-lo. A 9 de maio, na véspera do 18.º aniversário, Mateus marcou o segundo golo da vitória por 3-2 sobre o Famalicão que deu ao FC Porto o campeonato nacional de sub-19, sete anos depois, e terminou a época entre a aprendizagem profissional e um título na formação – dois contextos diferentes, ligados pelo mesmo jogador.
O passo que falta A nova temporada aproximou-o da equipa principal sem o retirar dos lugares onde ainda precisa de competir. Francesco Farioli chamou-o ao estágio de pré-época em Inglaterra e utilizou-o no particular com o Gil Vicente. A notícia chegou através de André Castro quando Mateus fazia compras com um amigo, acompanhada de um pedido de silêncio. Guardou o segredo e levou para Inglaterra a vontade de mostrar o que já fazia nos sub-19 e na equipa B. Desde então, foi titular nas primeiras jornadas da Segunda Liga e marcou ao Manchester City na abertura da Youth League. A renovação até 2031 não encerra esse trânsito. Pelo contrário, dá-lhe tempo e transforma a promessa em compromisso.“ Carregar este símbolo ao peito é uma responsabilidade enorme”, afirma, consciente de que elogios e críticas só lhe serão úteis se os souber usar para crescer. Também por isso, o objetivo que escolhe é concreto. Não fala em datas para chegar à equipa principal nem em destinos distantes. Quer estrear-se no Estádio do Dragão. Para um jogador que começou na Dragon Force, conquistou os dois maiores títulos internacionais do escalão e já chegou ao futebol profissional, a sequência parece improvável: primeiro o mundo, depois a casa. O estádio fica a poucos quilómetros do Olival, mas a distância não se mede no mapa. Mateus Mide passou a infância a chegar antes da idade e, aos 18 anos, tem contrato até 2031 e espaço para aprender outra coisa: há passos que não se tornam menores por demorarem mais tempo.
DA DRAGON FORCE À BOLA DE OURO DO MUNDIAL SUB-17, MATEUS MIDE FEZ O CURRÍCULO CORRER À FRENTE DA IDADE. A RENOVAÇÃO ATÉ 2031 DÁ TEMPO AO QUE AINDA FALTA: ESTREAR-SE NO DRAGÃO.
47