Dragões #477 Ago 2026 | Page 75

VOLEIBOL
AGOSTO 2026 REVISTA DRAGÕES

O convite chegou quando Shainah Joseph se encontrava em Atlanta a preparar o regresso à competição. O FC Porto trocou-lhe os planos e acrescentou Portugal a um percurso que já tinha passado por vários pontos do mapa. Nascida no Canadá, mudouse aos 19 anos para os Estados Unidos, conciliou o voleibol universitário com uma licenciatura em Telecomunicações na Universidade da Flórida e, concluídos os estudos, jogou na Bulgária, em Taiwan, nas Filipinas, no Japão e em França. Em 2023, regressou à Flórida para representar as Orlando Valkyries. O Porto podia ter sido apenas a paragem seguinte, mas acabou por tornar-se uma espécie de casa. A chegada aconteceu em novembro de 2024, já com a época em andamento e pouco tempo para conhecer uma equipa, um campeonato e uma forma diferente de jogar. Shainah admite que a adaptação não foi imediata, mas o impacto ofensivo não esperou: marcou 301 pontos em 25 jogos e terminou o campeonato com a melhor média de pontos por encontro, 9,5. Miguel Coelho identificou-lhe então duas características que iam além da capacidade de atacar. Falou de“ um caráter muito forte” e de“ experiência de nível muito alto”. A observação ganhou significado com o tempo. O treinador reconhecia a matéria-prima e a jogadora tratou de lhe acrescentar influência.

Da adaptação à liderança A primeira época completa confirmou que a produção inicial não tinha resultado apenas do efeito da novidade. Shainah Joseph marcou 307 pontos distribuídos pela Liga, pela Taça de Portugal e pela Taça CEV. Foi a terceira melhor pontuadora do plantel, atrás de Kelsey Veltman e Natalia Murek, e terminou igualmente no terceiro lugar da equipa em média de pontos por jogo, com 9,30. Os números medem o ataque, mas não explicam tudo. Ao segundo ano, Shainah deixou de estar apenas a descobrir o lugar que ocupava e começou a ajudar a defini-lo.“ Consegui assumir um papel de liderança dentro do grupo e acredito que ajudei a equipa a ter sucesso”, afirma. A renovação prolonga essa evolução e dá a Miguel Coelho uma referência que conhece o jogo, o grupo e a exigência de defender duas conquistas. A dobradinha ofereceu a confirmação coletiva. O FC Porto conquistou o
SHAINAH JOSEPH MARCOU 608 PONTOS NAS DUAS PRIMEIRAS ÉPOCAS, CONQUISTOU O CAMPEONATO E A TAÇA, E IMPÔS-SE DENTRO DO GRUPO. O TERCEIRO SET COMEÇA COM UMA AMBIÇÃO MAIOR: O TRIPLETE.
campeonato e a Taça de Portugal, e a canadiana guardou uma memória acima das restantes: a final da Taça, presenciada pelos pais, que lhe permitiu celebrar o primeiro troféu ao serviço do clube junto da família. A época terminou com dois títulos e uma conclusão importante: chegar ao topo exige qualidade, mas permanecer lá obriga a repeti-la. É nesse ponto que a continuidade da camisola 15 ganha maior relevância. O FC Porto não conserva apenas os pontos de uma oposta, mantém uma jogadora habituada a contextos diferentes, capaz de oferecer potência na zona 2 e já integrada na estrutura competitiva da equipa.
A fasquia subiu A terceira temporada começa num lugar diferente daquele em que Shainah encontrou o FC Porto. Já não há uma adaptação para cumprir nem um espaço para conquistar, mas sim um título nacional para defender, uma Taça de Portugal que regressa ao calendário como propriedade do campeão e uma Liga dos Campeões que coloca o grupo perante outro grau de exigência. Também no banco existe continuidade. Miguel Coelho prolongou o contrato até 2028 e prepara uma nova época com uma jogadora cuja evolução acompanhou desde a chegada inesperada em novembro de 2024. A experiência acumulada entre os dois reduz o tempo das apresentações e aumenta o das responsabilidades. Shainah Joseph não esconde a dimensão do objetivo.“ Já conquistámos a dobradinha, por isso agora o objetivo é o triplete”, declara a canadiana, juntando-lhe a ambição de vencer a Supertaça e de construir uma campanha europeia capaz de prolongar a época além das fronteiras nacionais. A formulação pode parecer simples, mas diz muito sobre a mudança de estatuto. Na chegada, a canadiana queria ajudar a ganhar. Dois anos depois, fala em liderança, em defender o lugar alcançado e em acrescentar um terceiro troféu aos dois conquistados. Fora da quadra, mantém o entusiasmo pela cidade, pelo Dragão Arena, pelo reencontro com as companheiras e até pelos pastéis de nata. Aos adeptos, agradece a forma como a fizeram sentir-se em casa e deixa uma promessa: vai continuar a praticar para um dia dar entrevistas em português. Dentro de campo, a tradução deixou de ser necessária há muito.
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