Dragões #477 Ago 2026 | Page 21

TEMA DE CAPA
AGOSTO 2026 REVISTA DRAGÕES
O quadro permite uma leitura imediata: sozinho, o FC Porto conquistou mais Supertaças do que os restantes vencedores da prova juntos. A liderança não cabe apenas no primeiro lugar, percebe-se também na distância.

Nem todas as contas exigem calculadora. Esta, por exemplo, exige apenas alguma capacidade de leitura. Vamos por partes. A Federação Portuguesa de Futebol classifica as edições de 1979 e 1980 como provas oficiosas e inicia o palmarés oficial da Supertaça Cândido de Oliveira em 1981. O próprio troféu respeita essa fronteira. O FC Porto soma 25 conquistas; Benfica e Sporting, nove; Boavista, duas; Vitória, uma. A partir daqui a décima Supertaça encarnada já não é matemática, é criatividade. O FC Porto chegou a esta edição já na liderança do número total de títulos oficiais, com 87 contra 86 do Benfica. Venceu o Torreense e passou para 88-86. Não ultrapassou ninguém, porque já seguia à frente; limitou-se a aumentar a vantagem. Aqui, o verbo correto não é“ ultrapassar”, é“ afastar-se”. Para chegar às dez Supertaças do Benfica é necessário ir ao arquivo, retirar a edição de 1980 da gaveta das provas oficiosas, arrancar-lhe o rótulo e introduzi-la no palmarés oficial pela porta das traseiras. Algumas plataformas fizeram exatamente isso e houve jornais e jornalistas dispostos a segurar a porta. Oficiosa não significa quase oficial ou oficial quando dá jeito. Significa que não é oficial. Pode ter jogos, vencedor, fotografias e lugar na memória, mas não tem autorização para entrar na contabilidade dos títulos. A FPF escreve-o, os programas da competição

PARA DAR DEZ SUPERTAÇAS AO BENFICA, É PRECISO CONTRARIAR A FPF, IGNORAR O PRÓPRIO TROFÉU E PROMOVER UMA PROVA
OFICIOSA. O ERRO PODE CORRER MUNDO, MAS NO PALMARÉS CONTINUA A VALER ZERO.
repetem-no e os nomes gravados no troféu confirmam-no. Não estamos perante duas interpretações igualmente válidas, porque de um lado está a fonte primária e do outro uma conta errada. Uma incorreção pode resultar de desatenção e merece ser corrigida, mas quando persiste depois de apresentados todos os elementos, deixa de ser apenas um lapso e transforma-se numa escolha editorial. E a carteira profissional não serve para dar autoridade a preferências clubísticas, obriga a informar com rigor e isenção. Quem continua a chamar oficial ao que a entidade organizadora classifica como oficioso talvez deva devolvê-la antes de voltar a distribuir títulos. A carteira de jornalista, entenda-se. A de sócio ou adepto pode continuar no bolso. A manobra já tem história. A 18 de maio de 2011, o FC Porto orientado por André Villas-Boas venceu a Liga Europa, chegou aos 68 troféus e ultrapassou o Benfica, que, sem a Supertaça oficiosa de 1980 e a Taça Latina de 1950, não reconhecida pela FIFA, tinha 67. Quatro dias depois, a conquista da Taça de Portugal elevou o total portista para 69 e alargou a diferença, mas, ainda assim, houve quem anunciasse um empate. Para construir esse 69-69 foram necessários dois títulos sem selo oficial: um recusado pela FIFA e outro classificado como oficioso pela FPF. Três dias mais tarde, o departamento responsável pelas bases de dados da FIFA esclareceu que a Taça Latina“ não merece o reconhecimento oficial” do organismo e não deve integrar o palmarés internacional oficial do Benfica. Retirada apenas essa peça, a própria FIFA colocou o FC Porto na frente por 69-68. Aplicando também o critério da FPF à Supertaça de 1980, a conta oficial ficava em 69-67. O alegado empate precisava de duas muletas, mas a FIFA retirou uma quando a Federação já tinha retirado a outra. O FC Porto não igualou o Benfica nessa tarde do Jamor, até porque já o tinha ultrapassado numa das curvas da Arena de Dublin. As conquistas seguintes fizeram o que a 25.ª Supertaça acaba de fazer outra vez: aumentaram a distância. Nesta tabela entram, por isso, apenas as Supertaças oficiais. As restantes podem ocupar uma nota de rodapé, alimentar uma conversa ou recordar os primeiros ensaios da competição. Não podem é receber estatuto por repetição, porque um erro publicado dez, cem ou mil vezes continua a valer zero títulos.
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