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JUNHO 2026 REVISTA DRAGÕES
Estádio das Antas, outubro de 1983. Álvaro Pinto e Jorge Nuno Pinto da Costa associam-se à homenagem a Miguel Arcanjo, antigo jogador e defesa-central. A fotografia guarda ainda outro encontro com a história: Álvaro Pinto fez parte da primeira Direção de Pinto da Costa e do movimento de sócios que ajudou a abrir um dos ciclos mais marcantes da vida do clube.
Álvaro Pinto atravessou quase um século de FC Porto sem nunca se colocar acima do clube. Viu-o primeiro com olhos de menino, ainda nos anos 30, quando a equipa do húngaro Joseph Szabo venceu a primeira edição do campeonato, em maio de 1935, e viu-o depois como sócio, dirigente, conselheiro, guardião de memória e homem de presença discreta, desses que não fazem da dedicação um palco, mas uma forma de estar. Nascido a 27 de setembro de 1928, Álvaro José Pereira Pinto Júnior começou a seguir o FC Porto desde muito cedo e permaneceu ligado ao clube até ao fim da vida. Morreu a 31 de maio de 2026, aos 97 anos, deixando uma biografia azul e branca feita de longevidade, serviço e pertença, com a sua história a confundirse com a de várias gerações de portistas, da primeira afirmação nacional ao ciclo moderno de conquistas que transformou o destino competitivo do clube. Em 1982 integrou como vice-presidente a primeira Direção liderada por Jorge Nuno Pinto da Costa, empossada a 23 de abril desse ano, mas a ligação a esse momento fundador foi ainda mais profunda: Álvaro Pinto fez parte do movimento de sócios que convenceu Pinto da Costa a integrar a lista que viria a assumir os destinos do FC Porto. Ficou, por isso, ligado a uma das maiores viragens institucionais da história portista e do futebol português. Essa forma de estar, discreta mas determinante, não se esgotou na dimensão diretiva. Álvaro Pinto também marcou a vida interna do FC Porto como espaço de continuidade e reencontro, tendo sido uma figura importante na criação e dinamização da equipa de futebol de veteranos, hoje conhecida por“ Vintage”. O projeto ajudou a manter ligados ao emblema muitos dos jogadores que tinham escrito páginas decisivas dentro das quatro linhas e revela bem a sua ideia de pertença: o clube não terminava na equipa que competia ao domingo, alargava-se a uma casa capaz de reconhecer, acolher e preservar quem a tinha servido. Mais do que estima pessoal, nesse apoio aos antigos jogadores havia uma noção profunda de gratidão e de responsabilidade histórica. Para Álvaro Pinto, esses nomes não pertenciam apenas a fotografias, recortes ou estatísticas; continuavam a transportar histórias, a alimentar laços e a dar corpo a uma herança que precisava de organização, cuidado e presença. Percebeu cedo que um clube grande não se constrói apenas com novas vitórias, mas também com a forma como trata aqueles que ajudaram a conquistá-las. Ao longo da vida recebeu distinções que dizem muito sobre o caminho percorrido.
Foi Dragão de Ouro em maio de 1994, na categoria de Dirigente do Ano, e recebeu a Roseta de Ouro em 1999 e a Roseta de Diamante em 2025, depois de completar 75 anos como associado do FC Porto. Enquanto presidente do Conselho Cultural, foi também promotor da própria iniciativa de atribuição das rosetas, criada para reconhecer os sócios que fazem da fidelidade uma forma de património. Nessas distinções está menos a celebração de um currículo do que o reconhecimento de uma constância. Álvaro Pinto pertenceu a uma geração de portistas para quem o clube era compromisso diário, presença regular, trabalho de bastidores e disponibilidade sem aparato. Atravessou tempos diferentes, direções diferentes, estádios diferentes e formas diferentes de viver o futebol, mas manteve uma linha de coerência rara, servindo o FC Porto onde fosse preciso, sem transformar o serviço em vaidade. A morte de Álvaro Pinto levou uma testemunha rara, alguém que viu o FC Porto crescer, mudar, resistir e conquistar, sem perder a noção essencial de que um clube também é feito por quem o serve sem ruído. Fica a memória de um dirigente, de um sócio exemplar, de um portista de vida inteira e, sobretudo, a longa fidelidade de quem pertenceu ao FC Porto antes de qualquer cargo e continuou a pertencer-lhe depois de todos eles.
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