Dragões #475 Jun 2026 | Page 35

FUTEBOL
JUNHO 2026 REVISTA DRAGÕES
Esse talvez seja o traço mais interessante do novo Dragão. A idade diz uma coisa, a forma como fala diz outra.“ Vou para o campo e faço o meu trabalho. Quando estou lá dentro não penso em mais nada, estou 100 % focado e consigo abstrair-me de tudo o resto”, explicou ainda em Inglaterra, à margem de uma eliminatória europeia frente ao Crystal Palace. O retrato encaixa no que o treinador do Fredrikstad dizia dele. É um jovem calmo, atento, capaz de absorver informação e de pensar enquanto é desafiado. Uma vez em campo, a serenidade não o impede de arriscar. Granaas define-se como“ um jogador que gosta de fazer as coisas acontecer, de jogar para a frente e de marcar golos”. Também pode atuar como número seis, mas prefere aparecer em zonas mais adiantadas, onde o passe pode ferir, a condução pode abrir espaço e a jogada pode ganhar outro ritmo. Já no Porto, completou o autorretrato:“ Gosto de jogar para a frente e de criar oportunidades, mas também de trabalhar defensivamente para a equipa.” A chegada ao FC Porto é a primeira experiência fora da Noruega e o entusiasmo ainda vem com cheiro a novidade.“ Está a ser uma experiência fantástica. Já me apercebi do carinho e da paixão que as pessoas têm pelo clube, fui muito bem tratado nestes primeiros momentos e estou muito ansioso por começar esta etapa”, afirmou. O plano passa agora por recuperar energias, entrar no Olival, conhecer a nova realidade e apanhar tudo o que puder pelo caminho.“ Quero aprender e absorver a cultura transmitida pelos locais, ajudar a equipa em tudo o que puder e dar o máximo para que tudo corra bem.” O termo“ cultura” não surge por acaso. Aos 16 anos, Granaas chega a um clube em que o talento e a exigência costumam andar de mãos dadas. Vai encontrar jovens jogadores em crescimento, uma equipa B preparada para acelerar etapas e uma proximidade natural ao plantel principal.“ Há aqui grandes jogadores, ainda que jovens, com quem estou entusiasmado por jogar e por aprender. Quero demonstrar o meu talento para ajudar a equipa”, disse. O número 70 será o primeiro sinal visível deste novo capítulo. Com ele vem um médio de 1,78 metros, internacional jovem norueguês, habituado a quebrar barreiras antes do tempo e suficientemente maduro para não ficar preso aos próprios recordes. O FC Porto trouxe-o cedo, precisamente porque esperar, no mercado atual, quase sempre significa chegar tarde. Granaas chega para aprender, crescer e competir. Mas chega também com uma pequena declaração de intenções no pé esquerdo, no pé direito e na cabeça levantada: gosta de jogar para a frente. E talvez seja essa a melhor forma de o apresentar. Eirik Granaas não vem para olhar para trás, nem para se deixar deslumbrar pelo que já fez. Vem para o Olival com 16 anos, contrato até 2029, uma mochila cheia de precocidade e uma frase que soa a cartão de visita:“ Ambiciono tornar-me o melhor jogador possível e ajudar a equipa a vencer.”
O diplomata do hat-trick
Muito antes de Eirik Granaas chegar ao FC Porto com o selo de promessa escandinava, outro norueguês abriu caminho por uma porta bem menos previsível. Chamava-se Fridtjof Resberg, ficou conhecido por Fridolf Resberg e não era propriamente um praticamente de final de tarde, ao ponto de somar duas internacionalizações e um golo pela seleção A da Noruega. Chegou ao Porto ligado ao consulado norueguês nos anos 20 do século passado e começou a aparecer no Campo da Constituição para se manter em forma. A intenção seria simples e despretensiosa. Correr um pouco, tocar na bola e desentorpecer as pernas depois do expediente. O problema, felizmente para o FC Porto, é que Resberg jogava demasiado bem para manter apenas a condição de visita. Desafiado pela direção de Domingos de Almeida Soares, presidente ligado a uma fase de modernização discreta do futebol portista, Resberg acabou por integrar a equipa de Ákos Teszler ao lado de figuras lendárias como Mihály Siska, Norman Hall e Velez Carneiro, e estreou-se a 23 de novembro de 1924 com um detalhe irresistível de quem resolveu tratar logo do expediente: no Campo do Bessa, marcou três golos na vitória por 6-1 sobre o Sport Progresso. Mais de um século depois, Granaas chega por outra porta, mais moderna e planeada, mas encontra uma pequena pegada norueguesa desenhada na história azul e branca.
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