Dragões #475 Jun 2026 | Page 33

FUTEBOL
JUNHO 2026 REVISTA DRAGÕES
Há no percurso dos guarda-redes uma solidão particular, quase uma ilha dentro do jogo, e no caso de João Afonso essa imagem ganha uma ironia bonita: sai de uma ilha real para defender, pouco a pouco, o seu espaço numa baliza de exigência máxima.
tantos rapazes que descobrem o jogo perto de casa, entre campos familiares, rostos conhecidos e uma geografia onde“ toda a gente se conhece”. Aos 14 anos mudouse para o Santa Clara, o maior emblema açoriano, e entrou logo no plantel de sub-19. A partir daí, o percurso acelerou. No Santa Clara, João Afonso venceu o campeonato dos Açores, o campeonato de São Miguel e a Taça Gualter Manuel Jácome Correia da Costa nos escalões de formação. Depois passou pelos sub-23, competiu na Liga Revelação, ajudou os sub-19 a subir à primeira divisão e chegou à seleção nacional de sub-18 com a participação no Torneio de Limoges. O caminho foi ganhando altura sem perder raiz.“ Ainda há pouco tempo jogava nos sub-23, depois o mister passou a apostar mais em mim, comecei a ter minutos na equipa A e, felizmente, as coisas correram bem”, contou, ainda com a sensação de que tudo aconteceu depressa demais para caber no espelho retrovisor. A estreia sénior chegou a 11 de maio, frente ao Nacional, no Estádio de São Miguel. Em casa, nos Açores, João Afonso foi titular, segurou a baliza durante os 90 minutos e ajudou o Santa Clara a manter a folha limpa diante de um rival direto. Cinco dias depois, estava no Dragão. Não como espectador, nem como miúdo a imaginar o que seria aquele palco, mas como adversário dos campeões nacionais. Foi escolhido para falar no final e não disfarçou o impacto:“ Foi um momento que nunca vou esquecer para o resto da vida. Nunca tinha jogado num ambiente destes, é completamente diferente daquilo a que estava habituado.” Talvez por isso a assinatura pelo FC Porto lhe tenha parecido, nas próprias palavras do guarda-redes, qualquer coisa que ainda não assentou completamente.“ Agora que assinei pelo FC Porto parece que ainda não me caiu a ficha”, admitiu. A frase tem a transparência dos 19 anos e também a lucidez de quem sabe que o deslumbramento só interessa se for convertido em trabalho.“ É isso que venho para aqui fazer, trabalhar”, sublinhou, antes de juntar ao presente uma referência inevitável:“ O Diogo Costa sempre foi o meu ídolo, por isso é muito bom estar com ele no FC Porto.” A baliza azul e branca tem sido uma escola dentro da escola. Diogo Costa tornou-se símbolo de formação, afirmação e alto rendimento. Cláudio Ramos acrescenta experiência, fiabilidade e cultura competitiva. João Costa terminou a última época com o raro currículo de campeão em vários degraus do futebol portista. João Afonso chega agora a esse contexto com a humildade de quem sabe esperar e a ambição de quem não quer apenas passar por ele.“ Vou esperar pela minha oportunidade, como fiz no Santa Clara, para poder agarrá-la da melhor forma”, prometeu. O autorretrato é simples e talvez por isso funcione:“ Sou confiante, tranquilo e acho que sou um bom guarda-redes.” Numa posição onde o erro costuma fazer mais barulho do que a defesa, confiança e tranquilidade não são adornos de discurso, são ferramentas de sobrevivência. João Afonso sabe-o.“ A posição de guardaredes é um bocado ingrata, mas damos sempre o máximo para podermos agarrar as oportunidades”, explicou. A oportunidade, agora, tem outras cores, outro tamanho e outro horizonte. Sair dos Açores será também parte do crescimento.“ Vai ser bom para crescer como pessoa e como homem”, reconheceu. Há no percurso dos guarda-redes uma solidão particular, quase uma ilha dentro do jogo e, no caso de João Afonso, essa imagem ganha uma ironia bonita: sai de uma ilha real para defender, pouco a pouco, o seu espaço numa baliza de exigência máxima. Traz São Miguel na memória, o Santa Clara no percurso e o Dragão como destino. Chega com cinco anos de contrato, um número nas costas e uma ideia muito clara na cabeça:“ Representar ao melhor nível as cores do FC Porto, dando o meu melhor na equipa A e na equipa B.” O resto começa agora.
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