Dragões #475 Jun 2026 | Page 25

FUTEBOL
JUNHO 2026 REVISTA DRAGÕES
A idade da coragem
O golo nasceu de uma daquelas transições em que o jogo parece abrir uma porta só para quem tem coragem de passar por ela. Gabri Veiga levantou a cabeça e lançou Oskar Pietuszewski no espaço; o polaco arrancou em velocidade, levou a bola colada ao pé e encarou Otamendi com a serenidade atrevida dos 17 anos. À entrada da área, não se encolheu perante o capitão do Benfica: esperou o instante certo, tirou-o do caminho com uma finta curta e seca, ganhou o ângulo e disparou sem pedir licença. Otamendi ficou no chão, Trubin ficou sem resposta, a Luz ficou em silêncio e o FC Porto chegou ao 0-2 com um golo que era muito mais do que um remate, era uma afirmação. Foi um golo com tudo: velocidade, descaramento, palco, rival e a crueldade elegante de quem transforma um clássico num momento de apresentação.

O formato teve nervo competitivo. Oito finalistas entraram em prova, distribuídos por eliminatórias, e cada duelo durou 24 horas. Não bastava vencer num canto da internet: o golo apurado tinha de conquistar pelo menos três das cinco áreas de votação, entre sondagens no canal de WhatsApp, no Twitter / X, nos Instagram Stories e comentários nas publicações de Instagram e Facebook. Uma espécie de colégio eleitoral, mas com menos gravatas, mais emojis e remates a entrar no ângulo. A lista de candidatos ajudava à discussão. William Gomes apresentou-se com dois momentos fortes, um em Alvalade, outro frente ao Nottingham Forest, como quem leva duas obras diferentes à mesma exposição. Rodrigo Mora entrou com o recorte técnico frente ao Sintrense. Victor Froholdt trouxe o golo ao Rio Ave. Borja Sainz apareceu com o remate em arco em Alverca. Seko Fofana levou para a votação a força da reviravolta em Braga. Samu entrou com instinto de avançado. E Oskar Pietuszewski, ainda com idade de promessa, mas já com descaramento de protagonista, levou a concurso o golo marcado na Luz. As eliminatórias foram afinando a escolha. Primeiro, William Gomes superou Rodrigo Mora e confirmou que um golo em Alvalade nunca chega sozinho: traz estádio, rivalidade, momento e memória agarrados à bota. Depois, Victor Froholdt bateu Borja Sainz, num duelo entre eficácia dinamarquesa e curva espanhola. Na terceira ronda, Seko Fofana mediu forças com William Gomes e, na quarta, Samu encontrou Oskar Pietuszewski, o jovem polaco que tinha escolhido um dos palcos mais difíceis do país para escrever uma das frases mais bonitas da época. Nas meias-finais, a votação ficou ainda mais apertada no imaginário. William Gomes derrotou Froholdt e levou até ao último duelo o golo de Alvalade. Oskar superou Fofana e transformou o golo na Luz em candidatura definitiva. A final ficou, assim, entregue a dois momentos fora de casa, dois golpes de autoridade em território adversário, duas bolas com peso de clássico. De um lado, William em Alvalade. Do outro, Pietuszewski na Luz. Não era apenas uma escolha entre dois golos, era uma disputa entre dois cenários de grande voltagem. Venceu Oskar. E talvez a vitória diga tanto sobre a execução como sobre a história que a rodeia. O golo na Luz tinha tudo para ficar: o palco, o adversário, a juventude de quem o marcou e a sensação de que, naquele instante, a promessa deixou de pedir licença para entrar na época. Foi um remate, mas também foi uma apresentação em voz alta, daquelas que a bancada adversária ouve mesmo quando preferia não ouvir. O“ Golo do Ano” acabou por ser eleito pelos adeptos, mas a votação confirmou algo maior: a temporada do FC Porto teve golos para todos os gostos, de todos os feitios e em diferentes geografias da exigência. Houve potência, subtileza, curva, decisão, irreverência e sangue-frio. No fim, a democracia dos golaços escolheu Pietuszewski. A bola entrou na Luz, passou pelas redes sociais e acabou no lugar certo, no arquivo das memórias da época.

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