ESPECIAL CAMPEÕES
MAIO 2026 REVISTA DRAGÕES
A festa ainda respirava no relvado quando o Dragão mudou de tom. O FC Porto tinha acabado de vencer o Alverca, com um golo de Jan Bednarek, e de confirmar o 31.º título de campeão nacional da sua história. O estádio já se tinha entregado ao barulho próprio das grandes noites, mas a celebração tinha uma promessa para cumprir: lembrar Jorge Costa, o Capitão, o“ Bicho”, o diretor de futebol profissional que partiu no início da época e a quem este campeonato foi dedicado desde a primeira hora. Poucos minutos depois do apito final, as luzes apagaram-se. As bancadas acenderam-se com as lanternas dos telemóveis e os ecrãs gigantes devolveram ao estádio imagens de Jorge Costa. No relvado, André Villas-Boas e Estela Rito, viúva do antigo capitão, aguardavam a descida da bandeira do FC Porto que tinha abraçado a urna de Jorge Costa e que permanecera no estádio desde o funeral. Ao som de“ Never Enough”, canção imortalizada no filme musical The Greatest Showman pela voz de Loren Allred, a bandeira desceu lentamente até à relva. O título da música parecia dizer o que a noite não precisava de explicar: perante certas ausências, nunca é suficiente. Não era apenas um símbolo a regressar ao campo, era uma memória a tomar lugar na festa. Quando a bandeira chegou ao relvado, Villas-Boas e Estela Rito receberamna, um de cada lado, e ergueram-na perante o Dragão. À volta, o plantel acompanhava em silêncio a homenagem. A emoção atravessou jogadores, equipa técnica e adeptos, com lágrimas que não precisavam de explicação. Depois, o presidente colocou a bandeira sobre os ombros de Diogo Costa, o atual capitão, e o estádio cantou o hino do clube. Foi um daqueles instantes em que o passado não interrompe o presente, mas acrescenta peso, sentido e continuidade. Francesco Farioli deu palavras ao que a noite já tinha mostrado.“ Acho que o Jorge nos ajudou com alguns cortes”, disse o treinador, ainda tomado pelas emoções de uma conquista que considerou“ muito merecida”. Mais tarde, foi mais fundo: Jorge Costa“ foi a nossa força esta época” e uma das últimas coisas
A bandeira voltou a ondular no Dragão, agora como símbolo de uma ausência que continua presente. André Villas-Boas e Estela Rito seguraram a memória de Jorge Costa.
Foi festa, mas nunca foi só festa. No coração do título ficou a memória de Jorge Costa. que disse ao grupo foi que o FC Porto“ tinha uma equipa novamente”.“ Esta equipa lutou para manter vivas estas últimas palavras dele”, acrescentou. A homenagem fechava um círculo aberto logo no arranque da época. Em agosto, ainda perante a dor da perda, Farioli assumira que o grupo queria“ honrar a memória e o legado” de Jorge Costa, seguir o seu exemplo, a sua paixão pelo clube e demonstrar dentro do campo o ADN que ele representava. Meses depois, no Dragão, essa intenção deixou de ser frase de resistência e passou a imagem de campeão. André Villas-Boas também ligou a conquista a essa herança. Na mensagem assinada depois do título, dedicou a vitória“ inteiramente a Jorge Nuno Pinto da Costa, o Presidente dos Presidentes do FC Porto, e a Jorge Costa”, chamandolhes“ dois símbolos” de uma história que“ exige sempre mais”. A mesma mensagem fechava com uma frase que servia para a noite e para o dia seguinte:“ No FC Porto celebrar é um momento. Vencer, esse, é um compromisso.” Por isso, a homenagem a Jorge Costa não foi um parêntesis na festa, foi o seu centro emocional. O FC Porto celebrou um título, mas antes de o guardar no palmarés, devolveu-o a quem ajudou a dar-lhe alma. A bandeira desceu do alto do estádio até ao relvado como se atravessasse uma época inteira, da perda à promessa, da promessa ao trabalho, do trabalho ao título. E, por uns minutos, no meio da luz dos telemóveis e da voz do estádio, percebeu-se que algumas ausências não ficam fora de campo. Continuam a jogar.
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