Dragões #473 Abr 2026 | Page 55

CLUBE
ABRIL 2026 REVISTA DRAGÕES

A ARTE DE SERVIR em silêncio

06.06.1940 – 10.04.2026
José Manuel de Matos Fernandes morreu aos 85 anos e deixou no FC Porto a memória de uma presença discreta, firme e profundamente respeitada. Antigo presidente da Mesa da Assembleia Geral do clube e da SAD, distinguiu-se por uma forma serena de servir, marcada pela elevação institucional e por uma ligação longa ao universo portista.
TEXTO de ALBERTO BARBOSA

A morte de José Manuel de Matos Fernandes privou o FC Porto de uma das figuras mais respeitadas da sua vida institucional recente. Antigo presidente da Mesa da Assembleia Geral do clube e da SAD, distinguido com os Dragões de Ouro de Sócio do Ano, em 2008, e de Dirigente do Ano, em 2018, morreu aos 85 anos, deixando atrás de si um percurso marcado pela discrição, pela solidez e por um raro sentido de responsabilidade no exercício dos cargos que assumiu. Nascido a 6 de junho de 1940, no Porto, pertenceu a uma geração de dirigentes para quem representar o clube significava, antes de mais, honrá-lo com seriedade, elevação e profundo sentido institucional. Fora do universo portista, José Manuel de Matos Fernandes construiu também uma carreira de grande relevo na magistratura portuguesa. Iniciou o seu percurso judicial em dezembro de 1978, como juiz de círculo efetivo no Círculo Judicial de Aveiro, foi vogal eleito do Conselho Superior da Magistratura entre 1985 e 1989, ascendeu em dezembro de 1988 a juiz desembargador no Tribunal da Relação do Porto e, em 1996, passou pelo Governo como secretário de Estado adjunto do Ministro da Justiça antes de chegar, em setembro desse mesmo ano, ao Supremo Tribunal de Justiça como juiz conselheiro. O seu trajeto profissional desenha o perfil de um homem habituado ao peso das instituições, à exigência das funções públicas e à responsabilidade serena de decidir. Ao FC Porto ligou-se durante décadas com uma fidelidade longa e sem alarido, primeiro como associado, depois como dirigente, até assumir a presidência da Mesa da Assembleia Geral do clube e da SAD. Em janeiro de 2018, ao cumprir 50 anos como associado, foi homenageado com a roseta de ouro, distinção que precedeu o reconhecimento como Dirigente do Ano. Antes, em 2008, o clube tinha-lhe atribuído o Dragão de Ouro de Sócio do Ano, sinal de uma ligação antiga e continuamente valorizada pela instituição. Em 2020 encerrou o seu ciclo nos órgãos sociais, depois de um percurso em que a autoridade nunca precisou de se confundir com estridência para se fazer sentir. Mais do que a enumeração de cargos ou distinções, permanece a memória de uma presença institucional de grande compostura. José Manuel de Matos Fernandes representou um certo modo de servir o FC Porto, sem protagonismo excessivo, sem gestos para a fotografia, mas com a firmeza de quem percebia que também nas estruturas de um clube se joga parte decisiva da sua identidade.

HUMOR COM GRANDEZA
Na gala dos Dragões de Ouro de 2018, realizada no Coliseu do Porto, José Manuel de Matos Fernandes mostrou que a dignidade também pode sorrir. Ao receber o prémio de Dirigente do Ano, surpreendeu a sala com um apontamento de humor que desarmou a solenidade do momento e revelou, por instantes, o homem por detrás do cargo:“ Juro que acabo de ser apanhado de surpresa. Ainda bem que está aqui na sala o meu ilustre cardiologista, pode dar-se o caso de ele ainda hoje ter de prestar alguns serviços ao seu paciente.” Houve riso, houve ternura, houve verdade. E depois, como tantas vezes acontece com quem não precisa de excessos para se fazer ouvir, bastoulhe um agradecimento simples e uma declaração final para resumir uma vida inteira de ligação ao clube:“ A todos vós, muito obrigado. Viva o FC Porto!” Desse instante ficou a memória de um homem respeitado, mas também caloroso, espirituoso e profundamente humano.
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