MERCADO
DEZEMBRO JANEIRO 2026 2025 REVISTA DRAGÕES que havia relações próximas entre os dois clubes, na tentativa de ganhar minutos e reiniciar o percurso. A passagem por Portugal terminava cedo e sem a estreia na equipa principal, mas não terminava vazia. Deixava-lhe, pelo menos, o primeiro contacto com a Europa. Era a história de um começo interrompido, com um miúdo longe de casa, a lutar para se adaptar e, sem saber, a ganhar a resistência que o transformaria num dos grandes centrais do seu tempo.
O CORPO MANDOU PARAR Em Moscovo, a carreira de Thiago Silva deixou de obedecer ao calendário do futebol e passou a obedecer ao do corpo. Chegou ao Dínamo em 2005 por empréstimo, à procura de minutos e de um patamar acima, mas levava consigo um mal-estar que ainda não tinha explicação. As queixas respiratórias e as dores no peito acabaram por se agravar já na Rússia e, durante a préépoca, com sintomas persistentes, surgiu o diagnóstico que ninguém espera aos 20 anos: tuberculose. A partir daí, o jogo ficou em suspenso. Thiago passou cerca de meio ano internado num hospital russo e, durante um período, não pôde receber visitas, de acordo com as precauções associadas à doença. O tratamento foi exigente e o isolamento também. Longe de casa, onde não dominava a língua, aprendia a lidar com a incerteza enquanto o futebol se tornava um assunto secundário. O momento mais delicado chegou quando foi ponderada uma intervenção cirúrgica a um dos pulmões, cenário que ele próprio recordaria mais tarde como potencialmente decisivo para a carreira. Retirar parte do pulmão seria o fim. A família recusou essa hipótese e a mulher, Isabelle, foi apoio constante num período em que cada progresso era conquistado a custo. Thiago Silva não chegou a disputar qualquer jogo pelo Dínamo. Recuperou, voltou a ganhar fôlego passo a passo e só depois retomou o caminho competitivo. Moscovo não lhe deu minutos, mas deu-lhe uma espécie de segunda vida. Quando voltou, já não era apenas um jovem promissor, era alguém que tinha atravessado o pior e aprendido a importância de resistir.
O RECOMEÇO E O“ MONSTRO” Recuperado e com a carreira de volta, Thiago Silva regressou ao Brasil para recomeçar onde já tinha raízes: o Fluminense. Em 2006, o treinador Ivo Wortmann chegou às Laranjeiras e pediu que o clube o fosse buscar, mesmo com o historial de saúde recente. O Fluminense anunciou a contratação a 14 de janeiro de 2006, e ali começou um episódio de confiança num jogador que ainda era promessa, mas já levava uma história inteira no corpo. 2006 foi um ano de reconstrução. O Fluminense sofreu no Brasileirão, mas Thiago foi ganhando espaço e respeito jogo a jogo, ao ponto de ser descrito como um dos melhores do plantel. É também nessa época que nasce o apelido“ O Monstro”, não por folclore, mas pela sensação de segurança que transmitia: rapidez a corrigir, leitura de jogo, liderança serena. Em 2007, tudo acelera. O Fluminense melhora, fecha o campeonato entre os primeiros e, sobretudo, conquista um troféu que tinha peso histórico: a Copa do Brasil, a primeira do clube. O site oficial do Flu lembra a final com o Figueirense e sublinha a importância de Thiago na campanha e na noite decisiva. O próprio resumiu esse momento sem floreados: a conquista foi“ marcante e especial”. 2008 é a rubrica do“ quase” que, paradoxalmente, o tornou ainda maior. O Fluminense apostou forte na Libertadores, a caminhada foi épica e Thiago foi um dos rostos do percurso. Na meia-final, frente ao Boca Juniors, marcou um golo crucial num jogo que ficou como fotografia da sua influência. E a equipa chegou à final, perdendo depois nos penáltis contra a LDU Quito. Dói, mas também consagra. Thiago já não era apenas um bom defesa, era referência continental. Ao mesmo tempo, o estatuto crescia fora do clube. A forma de Thiago levou-o a entrar no radar da seleção e a ser cada vez mais reconhecido como um dos melhores defesas a atuar no Brasil. O Fluminense, olhando para trás, fala desse período como o início da história do“ Monstro” e sublinha que ele somou mais de 100 jogos pelo clube nessa passagem. Com a porta da Europa a abrir-se de vez, e depois de duas épocas e meia a transformar confiança em rendimento, Thiago Silva deixa o Fluminense já com uma assinatura clara e madura, pronto para o salto seguinte.
O MOMENTO MAIS DELICADO CHEGOU QUANDO FOI PONDERADA UMA INTERVENÇÃO CIRÚRGICA A UM DOS PULMÕES, CENÁRIO QUE ELE PRÓPRIO RECORDARIA MAIS TARDE COMO POTENCIALMENTE DECISIVO PARA A CARREIRA. RETIRAR PARTE DO PULMÃO SERIA O FIM.
34