MERCADO
JANEIRO 2026 REVISTA DRAGÕES
Depois de ter passado pelo Porto sem nunca chegar a vestir a camisola da equipa principal, Thiago Silva voltou à cidade e ao lugar exato onde a vida deixou um parágrafo por terminar.“ É um momento único na minha vida”, disse o internacional brasileiro, agradecido ao clube e ao presidente“ pela oportunidade de vestir a camisola pela segunda vez”. O acordo ficou selado numa videochamada com André Villas-Boas e Francesco Farioli, mas ganhou outra dimensão quando recebeu no Rio de Janeiro uma camisola e uma carta“ linda” que o emocionou. Percebeu, naquele instante, que o regresso, mais do que possível, era uma responsabilidade. Com uma Liga dos Campeões, um Mundial de Clubes, uma Supertaça Europeia, uma Copa América, uma Taça das Confederações e um total de 31 títulos, o currículo podia convidar à contemplação, mas Thiago fala do palmarés como quem arruma medalhas e volta ao treino. E confessa um“ grande problema” com uma franqueza desarmante: gosta muito de ganhar, não gosta de perder e nunca se sente satisfeito. É essa fome, mais do que a idade, que o define.“ Vim para somar e para ajudar todos a darem o melhor”, garante, afastando o folclore das braçadeiras e das vaidades, porque não vem para ser capitão por decreto, vem para acrescentar no detalhe,“ seja no campo, no banco ou na preparação”. E, aos 41 anos, a preparação deixa de ser uma rotina para se tornar quase um ofício – recuperação, alimentação, sono, obsessão assumida.
O BICHO E O MONSTRO A primeira passagem pelo FC Porto foi uma travessia difícil. Campos pequenos, relvados longe do ideal, uma dor no peito e na cabeça que lhe roubava o ar sem se deixar diagnosticar.“ Enquanto estava a treinar e a jogar, não sabia o que me impedia de dar o máximo”, explica. Só mais tarde, já no Dínamo de Moscovo, uma bateria de exames explicou o que o corpo gritava em silêncio: tuberculose.“ Foi um dos piores momentos da minha vida e da minha carreira”, admite, sem apontar dedos e sem transferir culpas. O que sublinha é o que o salvou. Os“ anjos da guarda”, a família, os empresários e a coragem de interromper um caminho quando o caminho ameaçava interrompê-lo a ele. Voltou ao Porto para terminar o tratamento e procurar outra opinião médica. E foi essa segunda voz que lhe devolveu o futuro. Podia ficar tranquilo, voltaria a jogar. A partir daí, nasceram duas coisas. A paz e um objetivo grande, quase teimoso: voltar à Europa e ao mais alto nível. No mapa afetivo desse regresso, há um nome que funciona como ponte entre duas margens do tempo: Jorge Costa. Thiago descreve-o como imagem forte, imediata, quase indissociável do emblema.“ Dizíamos Jorge Costa e pensávamos no FC Porto e vice-versa.” Naquela altura, sentia-se“ dividido por um muro” e sonhava atravessálo para estar“ do outro lado” com os que admirava. O futebol, que tantas vezes separa através paredes invisíveis, trouxe-o agora para dentro,“ literalmente”, com a coincidência a piscar o olho. A alcunha“ Monstro”, que o acompanha desde o Fluminense, nasceu de um lance em que tirou“ uma bola quase impossível” e o guardaredes Fernando Henrique o batizou num impulso. A palavra ficou e, para os portistas, ganha eco no imaginário do“ Bicho”, no vínculo natural ao capitão que foi símbolo. Thiago sorri com essa ligação e transforma-a em promessa silenciosa: estar à altura do nome, honrar a camisola, ser feliz.
A CICATRIZ E O IMPULSO O que o prende ao jogo é a leitura, diz ele. Entender o jogo, fazer o adversário sofrer com controlo, ocupação de espaços e superioridade criada com bola e sem ela. A linguagem do central é de quem observa muito e decide melhor. Por isso se revê no ADN do FC Porto como“ equipa dominadora” e identifica em Francesco Farioli uma mão clara no que a equipa já é.“ É raro ver uma equipa assim”, confessa, falando das comemorações, das fotografias do pós-jogo, do sentimento coletivo que denuncia um balneário vivo. Acompanha a carreira do treinador, sabe o que custam as épocas em que o título parece estar ao alcance e escapa no fim, e por isso verbaliza um desejo que é também uma forma de respeito:“ Premiar a equipa técnica com um título”. É aqui que entra a frase que cheira a título:“ Os campeonatos perdem-se contra equipas consideradas mais fracas”. Thiago repete-a não como sentença, mas como aviso. Conhece a tentação de baixar dois pontos de concentração quando o adversário tem menos nome e conhece o preço desse segundo de distração. Foi assim que leu, por exemplo, a vitória nos Açores: um jogo duro, num campo difícil, com um adversário competente e uma equipa consciente de que ali não havia facilidades, apenas tarefas. E, mesmo quando o futebol se decide em lances que parecem acidentes, ele não compra a ideia de que tudo foi obra do acaso. Depois há o Estádio do Dragão, lugar de memórias cruzadas, mesmo quando vestia outras cores. Foi ali que viveu a final da Champions em 2021, lesionado e substituído,“ como um treinador” no banco, a orientar, a sofrer, a sentir que a cidade lhe devolvia, em círculo, o que um dia lhe tinha tirado. Agora regressa para viver do lado de dentro o ambiente“ diferenciado” com uma certeza antiga:“ Os adeptos são a vida do clube”. Viu isso quando ia ao estádio, quando seguia a equipa, quando percebeu que os portistas aparecem também fora, sempre presentes, sempre exigentes. E entende a exigência como parte do pacto, porque um adepto pode ficar triste com uma derrota, mas apoia quando sente entrega, quando sente que a equipa o representa. Thiago Silva chega ao FC Porto para fechar um ciclo e abrir outro. Quer“ retribuir dentro do campo todo o carinho e admiração”, quer conquistar“ o tão sonhado título” e quer acrescentar à sua lista um troféu que lhe falta por um motivo simples – nunca jogou a Liga Europa. Ao elogiar a liderança natural de Diogo Costa, deixa uma ideia que serve de fecho e de guia: num balneário forte, a hierarquia não se impõe, somase. E ele veio exatamente para isso. Para somar. Para transformar a cicatriz de 2005 num impulso de 2026. E para escrever um final feliz que não apaga o passado, mas que o completa.
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