TEMA DE CAPA
JANEIRO 2026 REVISTA DRAGÕES
Nem todos os rankings falam a mesma língua. Quando a liga muda de tamanho, a conta mais justa é a que não depende do calendário nem do número de participantes. Se o futebol português alterna entre ligas de 16 e 18 equipas, a métrica que não pede desculpa a ninguém é a dos pontos por jogo: é o mesmo termómetro, seja qual for a camisola. E é aí que a estreia de Francesco Farioli no FC Porto ganha especial relevo, com 49 pontos em 17 jornadas, ou seja, 2,88 pontos por jogo, num arranque que encosta a palavra“ excelência” à parede e ainda lhe pede identificação. O número é histórico em termos absolutos, mas o que o torna mais humano é a forma como o treinador o recusa como troféu.“ A maratona é longa e ainda só vamos a meio”, avisou Farioli no rescaldo do Santa Clara-FC Porto, lembrando que a primeira volta é apenas um capítulo e não o epílogo. A prudência, que não diminui a marca, dá-lhe contexto, até porque o recorde não nasce de uma noite inspirada, mas de uma rotina de exigência: 16 vitórias, um empate, dois pontos perdidos, e uma liderança que se escreve com distância. O comparativo ajuda a perceber a dimensão do salto. Em termos pontuais, o máximo anterior na era recente estava associado ao Benfica de 2019 / 20, com 48 pontos na primeira volta( 2,82 por jogo). Farioli passou essa linha e foi o primeiro a tratar o recorde pelo nome certo: é um marco, não é uma meta. E insistiu na ideia que tem guiado a caminhada desde o primeiro dia – os números são um prémio momentâneo, mas o foco não pode desviar-se do essencial, melhorar, repetir processos, manter a exigência. Em linguagem de balneário, o recado é simples: a primeira volta não dá medalhas, dá apenas uma vantagem que tem de ser defendida com o mesmo rigor com que foi conquistada. É aqui que a época de estreia ganha um brilho especial, porque há recordes que nascem de rotinas antigas e outros que nascem de mudanças rápidas. Farioli chegou, mexeu em hábitos, afinou comportamentos, acelerou entendimentos e, ainda assim, pôs a equipa a ganhar com regularidade, sem transformar a urgência em pressa. O FC Porto passou a primeira metade do campeonato com uma identidade clara e com resultados que sustentam essa ideia, mas o próprio treinador não deixa que o recorde se transforme em almofada, porque a segunda volta cobra sempre juros altos a quem esquece o essencial e se distrai com o acessório. E depois há um espelho particularmente curioso para os portistas, porque tem nome e hoje até tem gabinete. Em 2010 / 11, André Villas-Boas, também ele na época de estreia como treinador principal, fechou a primeira volta com 41 pontos em 15 jogos( 2,73 por jogo), com empates em Guimarães e no Dragão( frente ao Sporting), e ganhou balanço para uma temporada que juntou a Liga Europa, a Taça de Portugal e a Supertaça ao título nacional. O dado não serve para comparar épocas como quem compara cromos, mas serve para sublinhar a ideia de que o FC Porto tem uma relação antiga com estreias capazes de pulverizar todos os recordes. Num exercício de justiça estatística( o top em pontos por jogo), a primeira volta de Farioli surge no topo porque quase não dá margem ao acaso. E é aqui que a ironia entra pela porta: o italiano só não conseguiu o pleno porque o clássico com o Benfica deu empate e deu brado com um lance a pedir lupa: um agarrão seguido de puxão a Deniz Gül e o próprio Farioli
# ÉPOCA EQUIPA TREINADOR JOGOS PONTOS PPJ 1 2025 / 26 FC Porto Francesco Farioli 17 49 2.88 2 2019 / 20 Benfica Bruno Lage 17 48 2.82 3 1996 / 97 FC Porto António Oliveira 17 47 2.76 4 2021 / 22 FC Porto Sérgio Conceição 17 47 2.76 5 2010 / 11 FC Porto André Villas-Boas 17 47 2.73 6 2014 / 15 Benfica Jorge Jesus 17 46 2.71 7 2006 / 07 FC Porto Jesualdo Ferreira 15 40 2.67 8 1995 / 96 FC Porto Bobby Robson 17 45 2.65 9 2017 / 18 FC Porto Sérgio Conceição 17 45 2.65 10 2003 / 04 FC Porto José Mourinho 17 45 2.65 11 2020 / 21 Sporting Rúben Amorim 17 45 2.65 12 2002 / 03 FC Porto José Mourinho 17 45 2.65 13 2011 / 12 Benfica Jorge Jesus 15 39 2.60 14 2012 / 13 Benfica Jorge Jesus 15 39 2.60 15 2012 / 13 FC Porto Vítor Pereira 15 39 2.60 16 2007 / 08 FC Porto Jesualdo Ferreira 15 38 2.53 17 2011 / 12 FC Porto Vítor Pereira 15 37 2.47 18 2009 / 10 Benfica Jorge Jesus 15 36 2.40 19 2009 / 10 Braga Domingos Paciência 15 36 2.40 20 2013 / 14 Benfica Jorge Jesus 15 36 2.40
(*) Top 20 das melhores primeiras voltas da liga desde que a vitória vale três pontos, com épocas de 18 equipas( 17 jogos) e de 16 equipas( 15 jogos), ordenado por PPJ = Pontos ÷ Jogos.
foi direto ao assunto- se a camisola é puxada, é penálti. Até na quase-perfeição houve um rodapé escrito ao som do apito. E, claro, há o outro detalhe que o futebol adora como as narrativas que voltam com bigode e memória. O Benfica foi o único a tirar pontos ao FC Porto na primeira metade da liga e a imagem tornase fácil de guardar: Mourinho a entrar no Dragão como quem traz um manual de sobrevivência debaixo do braço, a pedir à equipa que respire curto, que feche portas e que não deixe migalhas no corredor. Compreensível. Quando o adversário está a bater recordes, o pragmatismo também conta como tática. Em resumo, nada está ganho, mas muito foi construído. O FC Porto de Farioli não está a colecionar números para a moldura, mas está a criar hábitos que no futebol são a forma mais séria de ambição. E se a maratona ainda vai a meio, o relógio já registou que a estreia de Francesco Farioli chegou para deixar rasto. Há ainda um dado que dá contexto ao momento sem o reduzir ao presente. No top 20 de pontos por jogo, o FC Porto ocupa 12 lugares, deixando apenas oito para Benfica, Sporting e Braga. Do rigor metódico de outras eras às equipas que aprenderam a vencer com maturidade, os azuis e brancos dominam a tabela, deixando uma impressão digital na história do campeonato e a prova de que a exigência enquanto cultura sobrevive às mudanças de plantel, aos ciclos e às modas do futebol. Tudo isto, com a frase mais importante sempre sublinhada a negrito: ainda nada está ganho. O recorde até pode ser uma bandeira, mas não é um troféu. Serve para lembrar o que a equipa já conseguiu no primeiro ano com Farioli e serve, sobretudo, para aumentar o nível de responsabilidade. O resto, como o futebol gosta de ensinar, não se escreve com estatísticas, escreve-se com continuidade.
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