Dragões #469 Dez 2025 | Page 37

TEMA DE CAPA
DEZEMBRO 2025 REVISTA DRAGÕES

CARREIRA João Pinto

O mítico número 2 do FC Porto tem nome e rosto: João Pinto. Centenas de futebolistas vestiram a camisola azul e branca, mas nenhum representou o clube tantas vezes como ele. São 588 jogos, 20 golos, nove campeonatos, oito Supertaças, quatro Taças de Portugal, uma Taça Intercontinental, uma Taça dos Campeões Europeus e uma Supertaça Europeia. Os números impressionam, mas continuam a não ser suficientes para explicar tudo o que significa para o FC Porto. Lateral direito de fibra e liderança natural, foi muito mais do que um defesa fiável. Era voz de comando em campo e no balneário, referência moral e competitiva de várias gerações, capitão que liderava pelo exemplo e por uma noção muito clara do que era“ jogar à Porto”. Representou sempre o clube com alma, com honra e com a dureza competitiva de quem sabia que o emblema ao peito pesa mais do que qualquer adversário. A mística do número 2 ganhou forma nele e ficou-lhe colada para sempre. A atribuição do Dragão de Ouro Carreira é, por isso, uma homenagem tão natural quanto inevitável. João Pinto fez questão de começar pelo presente, agradecendo“ ao senhor presidente e às pessoas que o acompanham” pelo prémio. Mas, fiel à ideia de coletivo que sempre defendeu, apressouse a garantir que não o queria só para si:“ Vou dividir este prémio por muita gente, se calhar só vai ficar um bocadinho da asa para mim, ou o emblema, mas não há problema.” Primeiro, a família – a mulher, o filho e as duas filhas –, esse núcleo que o acompanhou em todas as fases da carreira. Depois, cinco nomes que marcaram a sua vida desportiva e ajudaram a construir o capitão: José Maria Pedroto, Pinto da Costa, Reinaldo Teles, Fernando Gomes e Jorge Costa. Em cada um deles, um capítulo da história recente do clube; em todos, um pedaço daquilo que João Pinto se tornou. A distinção de carreira é também um retrato dessa teia de relações, de confiança e de exigência que molda as grandes equipas. Com a frontalidade que sempre o caracterizou, lembrou ainda aqueles que ficam muitas vezes fora dos discursos: os jogadores e equipas que não chegaram aos títulos, mas honraram a camisola.“ O FC Porto não vive só das pessoas e das equipas que ganham”, recordou, sublinhando que houve plantéis com qualidade que,“ por uma razão ou outra”, não conseguiram erguer troféus. Também para eles quis que fosse“ um bocadinho” do Dragão de Ouro, gesto que revela o sentido de justiça e camaradagem que sempre levou para o balneário. Houve também espaço para falar do presente e do futuro. Com humor, travou a língua antes de“ aparecer a bolinha” das conversas mais quentes, mas deixou um recado claro ao presidente:“ Não tenha medo de seguir em frente naquilo que são as suas ideias, as ideias do clube”. E puxou do arquivo da memória azul e branca para rejeitar qualquer regresso a velhas histórias do futebol português:“ Era o que faltava que passados 60 anos chegassem novamente ao futebol português os Calabotes.” Ao olhar para as bancadas cheias e para“ uma cidade enorme a puxar pelo FC Porto”, João Pinto reforçou a confiança na união entre Direção e associados. Admitiu que os simpatizantes portistas poderão não ser“ em número igual aos rivais de Lisboa”, mas garantiu que“ os poucos que somos, somos fortes e somos suficientes para levar de vencido aquilo que o senhor deseja e que todos nós portistas desejamos”. No fim, deixou um abraço a todos e um obrigado que soa a retribuição por tudo o que viveu.

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