TEMA DE CAPA
AGOSTO 2025 REVISTA DRAGÕES
A paixão obsessiva de Farioli
Mais do que treinos longos e análises minuciosas, Francesco Farioli trouxe uma proximidade rara. Conversa com os jogadores, preocupa-se genuinamente com cada um deles e acredita que só a confiança mútua pode transformar talento em vitórias. Entre o rigor e a empatia, constrói uma equipa com identidade.
TEXTO de ALBERTO BARBOSA
É o primeiro a chegar e o último a sair. É assim que Francesco Farioli vive o futebol: com intensidade e uma busca quase doentia da perfeição.“ O espírito de sacrifício é absolutamente inegociável”, diz repetidamente o técnico italiano de 36 anos que trouxe com ele muito mais do que um currículo internacional em ascensão. Disciplinado e metódico, Farioli implementou treinos longos e intensos, complementados por análises minuciosas em vídeo.“ Somos muito apaixonados e um pouco obsessivos com o que fazemos”, confessa.“ Há sempre algo a melhorar”. Apesar de todos os requisitos de que não abre mão, o técnico soube conquistar o balneário com uma proximidade autêntica. Fala individualmente com os jogadores, preocupa-se em saber como estão e construiu uma relação de confiança que equilibra rigor e a capacidade de se colocar na pele de cada um deles. Aplica no futebol uma abordagem refletida e moderna, privilegiando o jogo apoiado, a construção desde a defesa e a pressão alta, princípios herdados da escola de Roberto De Zerbi, mas reservando espaço à flexibilidade no modelo que elegeu.“ Estamos sempre abertos a mudanças e a sermos desafiados”, admite. Francesco chegou ao Dragão determinado a juntar ambição e identidade. A aposta na disciplina, na clareza de ideias e na valorização do coletivo reflete-se, não apenas na forma como prepara a equipa, mas também no discurso. Entre a paixão pelo jogo e o detalhe minucioso, o italiano assume-se como um treinador de convicções, mas atento ao que cada jogador pode acrescentar ao grupo. Na conferência de imprensa de apresentação, André Villas-Boas não escondeu a segurança na hora da escolha.“ É um treinador que nos vai levar ao sucesso”, garantiu.“ Carisma, entusiasmo, visão e determinação são qualidades que saltam à vista. Há um compromisso com a vitória que o liga imediatamente ao FC Porto”. Do Nice
“ Somos apaixonados e um pouco obsessivos com o que fazemos.”
ao Ajax, Farioli construiu um percurso que mistura modernidade tática e uma série de imposições diárias, e agora, no Dragão, promete transformar cada treino e cada jogo numa oportunidade para reforçar o ADN portista. Antes do jogo com o Vitória, que terminou com um triunfo claro, Farioli mostrou-se um treinador de coração e cabeça perfeitamente alinhados. Com uma vontade assumida de honrar Jorge Costa, cuja morte súbita abalou todo o universo portista, canalizou essa energia para uma exibição sólida, percebendo que o primeiro encontro oficial da temporada tinha muito mais em jogo do que os três pontos. Mais tarde, já na sala de imprensa, não se esquivou a críticas sobre intensidade e detalhes a melhorar.“ Ainda estamos a apanhar o ritmo”, explicou. A liderança é emotiva e ponderada, com um pé na sensibilidade e outro na exigência tática. Comunica com clareza, pede entrega absoluta e destaca o valor dos adeptos como combustível. Farioli vai moldando uma equipa com a serenidade de quem sabe que tudo se constrói passo a passo, tal como Roma e Pavia não se fizeram num dia. Na véspera do jogo de Barcelos sublinhou“ a responsabilidade fantástica” de jogar com o apoio dos adeptos e recordou novamente o legado de Jorge Costa, que colocava a equipa sempre acima de qualquer individualidade. Defendeu ainda Rodrigo Mora com firmeza, assegurando que o criativo“ é e será importante”, e reforçou a confiança no grupo, destacando líderes como Diogo Costa, Alan Varela ou Luuk de Jong. Já depois da vitória sobre o Gil Vicente, Farioli voltou a reforçar a procura de um equilíbrio entre precisão e entusiasmo que lhe marca o discurso. Admitindo que“ há coisas a melhorar” e que a equipa precisa de“ aumentar a consistência no jogo”, o treinador destacou a importância de não sofrer golos como“ um fator-chave” e assumiu que a identidade competitiva que quer para o FC Porto passa por“ manter o ritmo alto”, mesmo que isso implique desgaste e adaptação, deixando aos adeptos uma promessa simples mas mobilizadora:“ Trabalho árduo e bom espírito”.
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