Direito e Informação na Sociedade em Rede: atas Direito e Informação na Sociedade em Rede: atas | Página 505
Ainda que de maneira breve, articulamos o que nos diz Bourdieu sobre o
conceito de campo com o que nos ensina Foucault sobre o conceito de poder, a fim
de entendermos as inter-relações e as trocas que ocorrem entre os agentes dos
diferentes campos. Nas relações com os campos jurídico e estatal, o científico tem
mantido uma longa história no sentido de fornecer informações e conhecimentos
mais precisos sobre os sujeitos para melhor discipliná-los em seus comportamentos.
Nesse sentido, observamos que as fronteiras entre os campos são permeáveis,
produzindo zonas de contato pelas quais as ações dos agentes de um determinado
campo repercutem nos de outros campos, e vice-versa.
Dissemos que são por meio das interações entre os campos que ganham forma
os desafios com os quais a ciência precisa lidar no modo como produz informações
e conhecimentos na contemporaneidade. Dentre os diferentes desafios possíveis
destacamos, neste trabalho, a maior atenção do pesquisador para com a ética, mas,
reiteramos que ela precisa ultrapassar a burocracia, a formalidade e a tendenciosidade
clínica dos CEPs que acabam por enfraquecê-la. Também, nessa direção, tratamos
dos desafios políticos que resultam de uma mudança na autopercepção dos indivíduos
e dos grupos humanos que interessam às Ciências Humanas, Sociais e Aplicações,
apontando para o aperfeiçoamento das relações entre o pesquisador e as pessoas sobre
e com as quais produz conhecimento. Na esfera tecnológica, colocamos que os
desafios são expressos pelo melhor aproveitamento do que as redes e as tecnologias
digitais oferecem em termos de produção e de socialização de informações e
conhecimentos, especialmente no sentido de romper padrões impostos pelas grandes
editoras internacionais, que capitalizam e limitam a comunicação entre os
pesquisadores e a sociedade mais ampla.
Sobre o perfil do pesquisador falamos em dois modelos: um que caracterizamos
como mais tradicional e outro como emergente. Em termos gerais, eles se diferenciam
pelo modo como se relacionam com os indivíduos e com os grupos que pesquisam,
pelos temas de pesquisa a que se dedicam, pela postura teórica e metodológica que
adotam, e pela menor ou maior incorporação das redes e dos recursos digitais aos
processos de produção e socialização de informações e conhecimentos, bem como
no domínio que possuem quanto ao uso desses recursos tecnológicos. Sobre esses
modelos, ainda admitimos que eles são limitados no modo como os representamos,
e que ambos possuem traços intercambiáveis. Assim, é possível encontrarmos
características do novo perfil no modelo mais tradicional e vice-versa, possivelmente
conformando aspectos intermediários que estão envolvidos nesse processo de
mudança para o pesquisador e que só estudos posteriores serão capazes de explicar.
Por conseguinte, os desafios sobre os quais nos ocupamos neste trabalho
nascem das questões que se impõem na atualidade e demandam atitudes, habilidades,
saberes, isto é, competências de um tipo novo. Por serem novas, há que se entender
que essas competências se encontram em franco processo de construção. Ademais,
elas tendem a se expandir e a se consolidarem conforme a capacidade dos
pesquisadores de se adaptam às novas realidades sociais, éticas, políticas e
tecnológicas que afetam as práticas científicas em sua totalidade e em diferentes
países, quais sejam do Norte ou do Sul Global.
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