TIAGO CORTE-REAL
dentro vinham cânticos numa língua que não a dele, que ele
não entendia, mas que o confortava. Entrou. Depois de uns
segundos para se adaptar à mudança de luz, vislumbrou
várias silhuetas de mãos dadas entregues a uma espécie de
murmúrio tântrico.
Uma das silhuetas saiu do grupo e dirigiu–se a ele.
Menstap assustou–se e censurou–se pela sua petulância ao ter
entrado. Certamente iriam expulsá–lo a pontapé, ou pior,
chamar a polícia. Um leve tremor tomou–lhe conta do corpo
e da voz quando uma mão estranha encontrou o seu ombro.
Esta era a primeira vez que alguém lhe tinha tocado, desde
que os serviços médicos o tinham examinado aquando da sua
detenção à entrada de Espanha. “Não fiques aí Irmão. Entra.
Esta casa é de Deus. É de nós todos”. Apesar do nível
rudimentar do seu português, Menstap percebeu na voz
daquele homem alto e de figura distinta um tom melódico e
reconfortante que o fazia pensar no velho curandeiro da sua
aldeia.
– “Tu crês em Deus, Irmão”, perguntou o homem.
Menstap pensou durante breves segundos, meteu a mão ao
bolso e tirou a moeda de bronze. Não sabia ao certo no que
acreditava, mas talvez fosse altura de acreditar em algo. A Fé
veio para acabar com o medo, e nunca nada lhe tinha
amedrontado tanto como a realidade que acaba por ser este
sonho da Terra Prometida. Voltou a colocar a moeda no
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