sem terra (o MST). Tanto o programa brasileiro de redistribuição
fundiária foi interrompido em anos recentes como, em especial, a
demanda social pelo acesso à terra também deixou de existir e,
assim, o MST perdeu a sua raison d’être.
Embora raramente comentada na literatura especializada,
outra evidência empírica é ainda mais eloquente, quando são
comparados os censos agropecuários de 1970 e o mais recente,
publicado em 2006. Se tomadas apenas as proporções, relativa-
mente ao total de estabelecimentos rurais apurados, o número de
proprietários cresceu de 59.5%, em 1970, para 75.9%, em 2006.
Ainda mais decisivos e reveladores, os indicadores de “arrendatá-
rios e parceiros”, os quais indicam as formas de produção não
capitalistas, caíram no mesmo período de 20.0% para 6.9%.
Finalmente, quando considerados os “ocupantes”, nos mesmos
anos, a queda foi de 16,1% para 7,8%, em 2006. São dados que
demonstram, de um lado, a expansão da apropriação privada da
terra, de um lado. Mas, de outro lado, são números que registram
a ocupação da terra por famílias rurais pobres sob arranjos não
capitalistas na década de 1970, em face da abundância de força
de trabalho, a existência de “terras livres” e os processos migrató-
rios em direção às regiões da fronteira agrícola. São evidências de
privatização dos recursos da terra e o avanço de uma lógica capi-
talista que no período foi capturando as regiões rurais.
As tendências de médio prazo
Em um prazo médio (algo em torno de duas décadas), quais
seriam as tendências principais que poderiam ser imediata- mente
identificadas, a partir da transição sugerida? Provavel- mente, são
cinco esses macro processos, em escala nacional, os quais,
somados e atuando conjuntamente, certamente confirma- rão no
prazo sugerido a afirmação irreversível de um novo padrão de
acumulação de capital no campo brasileiro e suas decorren- tes
implicações sociais e econômicas. Esquematicamente, essas
tendências principais seriam:
(a) a dominação definitiva e categórica do capital financeiro na
determinação de todos os processos essenciais do funcionamento
do sistema agroalimentar nacional – e não apenas cadeias produ-
tivas específicas, as mais dinâmicas e globalizadas. Da produção
e sua organização tecnológica à distribuição dos ganhos entre os
participantes do sistema. É determinação que implica em uma
O Brasil rural (1968-2018):
73