Desfazer as confusões pd52 | Página 69

gradualmente, se moveram para as regiões de fronteira do Centro -Oeste e do Norte. Em 1970, em seus contornos gerais, o Brasil rural era espan- tosamente modesto do ponto de vista da produção total, sua base tecnológica era extremamente primitiva e as relações comerciais eram reduzidas, seja em relação ao mercado interno ainda inci- piente, seja no tocante aos mercados internacionais. No comércio externo, o Brasil mantinha especialmente uma estrutura de comercialização organizada em torno do café – um cultivo que se expandiu na segunda metade do século 19 – e, secundariamente, em torno do açúcar, um cultivo estabelecido no período colonial mais remoto. O terceiro produto exportado, cacau, jamais atingiu mais de 4% do valor total das exportações. Sendo um país gigantesco, com uma estrutura fundiária concentrada desde a colonização inicial, os aumentos de produ- ção verificados ocorreram sempre devido à expansão da área plantada e, até recentemente, a elevação da produtividade não foi uma orientação econômica que tivesse motivado os produtores rurais. Entre 1948 e 1969, por exemplo, 92% do aumento da produção dos principais produtos agrícolas foi devido exclusiva- mente à ampliação da área utilizada. No plano social e político, o quadro era ainda mais atrasado naqueles anos iniciais, pois nas regiões rurais quase não existiam direitos, de nenhuma natureza, e nas quais o Estado e suas políticas e estruturas administrativas praticamente inexistiam. A estrutura da Justiça, no vasto interior brasileiro, era virtualmente nenhuma, e os conflitos nas regiões rurais foram invariavelmente resolvidos pela força bruta. Quase sempre, predominaram os recursos políti- cos coercitivos mobilizados pelos grandes proprietários de terra e as formas de protesto social pelos trabalhadores rurais e pequenos produtores sempre foram fortemente reprimidas. A vasta maioria da população rural era extremamente pobre e, sem garantir o acesso a parcelas de terra, o recurso às migrações como fuga (para as cidades ou para as regiões rurais mais remo- tas, onde ainda existiriam “terras livres”) parecia ser a única alternativa disponível. Não surpreende, portanto, que entre os anos de 1950 e 1980, de acordo com as evidências censitárias e relativamente ao total da população, os processos migratórios tenham sido os mais intensos. Esse movimento foi particular- mente vigoroso na década de 1970, quando o equivalente a 30,02% O Brasil rural (1968-2018): 67