Desfazer as confusões pd52 | Page 55

tuais. Vamos aproveitá-la para indagar ao Brasil real de hoje se ele tem mais ou menos condições e instrumentos para refratar o espectro que se tenta, mais uma vez, incluir na nossa pauta. Uma resposta prudente e uma confiável gramática Olhar para a Constituição de 88 e compará-la com a de 46 ajuda a espantar fantasmas. Mais do que para a Carta, olhar para as instituições que ela deu à luz. Temos hoje um Poder Executivo que é bem maior que o presidente, de modo diferente do que era, então, o Poder Executivo vis-à-vis o poder pessoal do presidente. Mais que esse Executivo institucionalizado, no Brasil de hoje há, por via da representação política e também da parti- cipação social, mais poderes governantes além dos do Executivo, mais do que houve em outros tempos, de modo que freios e contrapesos são reais e mais efetivos dentro da própria atividade governamental. Além de exercício limitado de governo, temos hoje, mais do que em qualquer outro tempo da nossa República, mais Estado e instituições republicanas além das que direta- mente governam. E não só governo e instituições políticas. Temos uma sociedade civil mais democrática, plural e secularizada do que em qualquer outro momento da nossa história. Não é razoá- vel perder de vista que a explicitação agressiva do mal estar de quem não está contente com isso é o que é: um mal estar com uma dinâmica política, social e cultural que desfavorece delírios autoritários e/ou nostálgicos. O otimismo cede quando se vê que instituições e sociedade não operam no automático. Pessoas e grupos as operam e a experiência recente não anima. Reagindo à imperícia e à impru- dência dos condutores habituais, o eleitorado colocou na Presi- dência um político sem compromisso anterior com o patrimônio político que acumulamos e mesmo adversário declarado de boa parte dele. Elegeu também mais autoritários e nostálgicos. Temos razões para ficar alertas, vigilantes e ativos, mas não inconformados, como ficam os ressentidos. A recusa ou mesmo resistência aos resultados das urnas, assim como a desqualifi- cação das razões da maioria, não são atitudes democráticas. No mínimo são elitistas. E não ajudará o medo do espectro, a apatia ou o desespero que ele pode causar. É preciso bloquear com firmeza o caminho mental que faz a consciência de riscos conver- ter-se em profecia e daí em paranoia. A gramática da política contra o pathos profético 53