tuais. Vamos aproveitá-la para indagar ao Brasil real de hoje se
ele tem mais ou menos condições e instrumentos para refratar o
espectro que se tenta, mais uma vez, incluir na nossa pauta.
Uma resposta prudente e uma confiável gramática
Olhar para a Constituição de 88 e compará-la com a de 46
ajuda a espantar fantasmas. Mais do que para a Carta, olhar para
as instituições que ela deu à luz. Temos hoje um Poder Executivo
que é bem maior que o presidente, de modo diferente do que era,
então, o Poder Executivo vis-à-vis o poder pessoal do presidente.
Mais que esse Executivo institucionalizado, no Brasil de hoje há,
por via da representação política e também da parti- cipação
social, mais poderes governantes além dos do Executivo, mais do
que houve em outros tempos, de modo que freios e contrapesos
são reais e mais efetivos dentro da própria atividade
governamental. Além de exercício limitado de governo, temos hoje,
mais do que em qualquer outro tempo da nossa República, mais
Estado e instituições republicanas além das que direta- mente
governam. E não só governo e instituições políticas. Temos uma
sociedade civil mais democrática, plural e secularizada do que em
qualquer outro momento da nossa história. Não é razoá- vel
perder de vista que a explicitação agressiva do mal estar de quem
não está contente com isso é o que é: um mal estar com uma
dinâmica política, social e cultural que desfavorece delírios
autoritários e/ou nostálgicos.
O otimismo cede quando se vê que instituições e sociedade
não operam no automático. Pessoas e grupos as operam e a
experiência recente não anima. Reagindo à imperícia e à impru-
dência dos condutores habituais, o eleitorado colocou na Presi-
dência um político sem compromisso anterior com o patrimônio
político que acumulamos e mesmo adversário declarado de boa
parte dele. Elegeu também mais autoritários e nostálgicos. Temos
razões para ficar alertas, vigilantes e ativos, mas não
inconformados, como ficam os ressentidos. A recusa ou mesmo
resistência aos resultados das urnas, assim como a desqualifi-
cação das razões da maioria, não são atitudes democráticas. No
mínimo são elitistas. E não ajudará o medo do espectro, a apatia
ou o desespero que ele pode causar. É preciso bloquear com
firmeza o caminho mental que faz a consciência de riscos conver-
ter-se em profecia e daí em paranoia.
A gramática da política contra o pathos profético
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