Desfazer as confusões pd52 | Page 50

para um teste de validação de uma hipótese de fascismo, em curso, ou mesmo em gestação? Claro que se pode responder a isso pelos caminhos da ideolo- gia, da fé, da adivinhação ou do desejo. Ainda no campo das premissas não demonstráveis, pode-se também supor que o fascismo resulte do DNA nacional presente nesse ou naquele país ou, num polo de convicção oposto, achar que esse ou aquele DNA nacional esteja vacinado desde sempre contra a incidência do fenômeno. Mas nem a análise histórica e política, se considerada a dinâmica cumulativa do fascismo – estudada por Paxton em dezenas de casos nacionais – nem uma eventual “sociologia do bolsonarismo” nos deixará ir longe nessa conjectura. O fato de ser ele um cavaleiro solitário, até ontem folclórico, que monta um cavalo selado por uma crise não basta para que se veja nele caso exemplar de fascismo. O fato de não ter havido entre nós a forma- ção prévia de um movimento político dotado de ideologia especí- fica, organização disciplinada e programa objetivo, do qual o líder é produto e expressão, deve ser considerado a sério. A menos que se imagine ser o “bolso-fascismo” uma jabuticaba, ou o Brasil um caso pioneiro que nega a dimensão cumulativa, caso em que o fascismo adentra o sistema político e chega à posição de maior destaque antes de se constituir em movimento político digno desse nome. O bom senso manda percorrer outras trilhas para entender o que está ocorrendo. Proponho revisitar o tema do autoritarismo no Brasil. Por aí talvez haja pistas mais transitáveis. Brasil: autoritarismo e democracia (cooptação e representação) É farta a literatura sobre o assunto. Impossível, mesmo mini- mamente, dar conta dela aqui. A escolha é de um autor e de uma obra que gozam de reconhecimento na ciência política brasileira, ainda que estejam longe de obter também o assentimento que se dedica a autores e obras canônicos. Trata-se de Simon Schwartz- man e o livro é Bases do autoritarismo brasileiro. São escolhidos até pelo potencial de controvérsia. A apropriação do repertório teórico metodológico de Max Weber é feita de modo a conjugá-lo e fazê-lo alimentar um horizonte normativo social-democrático, numa versão conectada, não com o campo socialista, mas com o campo liberal. Desnecessário concordar com suas premissas normativas e/ou com sua interpretação do Brasil para reconhe- 48 Paulo Fábio Dantas Neto