para um teste de validação de uma hipótese de fascismo, em
curso, ou mesmo em gestação?
Claro que se pode responder a isso pelos caminhos da ideolo-
gia, da fé, da adivinhação ou do desejo. Ainda no campo das
premissas não demonstráveis, pode-se também supor que o
fascismo resulte do DNA nacional presente nesse ou naquele país
ou, num polo de convicção oposto, achar que esse ou aquele DNA
nacional esteja vacinado desde sempre contra a incidência do
fenômeno. Mas nem a análise histórica e política, se considerada
a dinâmica cumulativa do fascismo – estudada por Paxton em
dezenas de casos nacionais – nem uma eventual “sociologia do
bolsonarismo” nos deixará ir longe nessa conjectura. O fato de ser
ele um cavaleiro solitário, até ontem folclórico, que monta um
cavalo selado por uma crise não basta para que se veja nele caso
exemplar de fascismo. O fato de não ter havido entre nós a forma-
ção prévia de um movimento político dotado de ideologia especí-
fica, organização disciplinada e programa objetivo, do qual o líder
é produto e expressão, deve ser considerado a sério. A menos que
se imagine ser o “bolso-fascismo” uma jabuticaba, ou o Brasil um
caso pioneiro que nega a dimensão cumulativa, caso em que o
fascismo adentra o sistema político e chega à posição de maior
destaque antes de se constituir em movimento político digno desse
nome. O bom senso manda percorrer outras trilhas para entender
o que está ocorrendo. Proponho revisitar o tema do autoritarismo
no Brasil. Por aí talvez haja pistas mais transitáveis.
Brasil: autoritarismo e democracia
(cooptação e representação)
É farta a literatura sobre o assunto. Impossível, mesmo mini-
mamente, dar conta dela aqui. A escolha é de um autor e de uma
obra que gozam de reconhecimento na ciência política brasileira,
ainda que estejam longe de obter também o assentimento que se
dedica a autores e obras canônicos. Trata-se de Simon Schwartz-
man e o livro é Bases do autoritarismo brasileiro. São escolhidos
até pelo potencial de controvérsia. A apropriação do repertório
teórico metodológico de Max Weber é feita de modo a conjugá-lo
e fazê-lo alimentar um horizonte normativo social-democrático,
numa versão conectada, não com o campo socialista, mas com o
campo liberal. Desnecessário concordar com suas premissas
normativas e/ou com sua interpretação do Brasil para reconhe-
48
Paulo Fábio Dantas Neto