sociais, a abordagem retrógrada de temas como direitos das mulhe-
res e dos homossexuais, apresentados nessa perspectiva conserva-
dora com rótulos do tipo “ideologia de gênero” e “kit gay”, prepa-
rando o empurrão eleitoral nos candidatos comprometidos com a
restrição de direitos, a pretexto da “proteção” das crianças.
Estes três filtros ajudam a entender o que se passou com boa
parte dos candidatos. Bolsonaro e seu campo tiraram proveito
das três ondas: a rejeição ao sistema, a demanda por segurança e
o conservadorismo nos costumes. O PT, por sua vez, foi identifi-
cado com o sistema, pagou parte do preço da falência da segu-
rança pública e foi o alvo do conservadorismo nos costumes.
A seu favor, apenas o monopólio, na percepção do eleitor, sobre a
agenda das políticas sociais.
Os demais candidatos subestimaram a natureza política da
campanha, além de não perceber a centralidade das questões da
segurança e da equidade. De modo geral, os excluídos do segundo
turno deram ênfase maior a aspectos gerenciais de sua hipoté-
tica futura gestão e não conseguiram mostrar a relação entre suas
propostas, como estabilidade econômica, e os pontos centrais da
agenda dominante.
Em todo caso, a perspectiva para o futuro é de grande dificul-
dade. O resultado da eleição evidenciou que grande número de
eleitores está disposto, em prol de determinados objetivos, a assu-
mir o risco de retrocesso no que diz respeito à regra democrática.
Temos, ao mesmo tempo, a nítida percepção do tamanho dos
problemas que nos aguardam e a consciência aguda da insufi-
ciência do nosso sistema político para lidar com eles. Embora a
maré conservadora procure se apresentar como uma nova agenda
para um novo tempo, os velhos problemas não deixarão de existir
apenas porque são subestimados pelo governo eleito. A questão do
ajuste fiscal, assim como a das reformas tributária e da previdên-
cia, baterá à porta no primeiro dia do novo governo.
Sabemos que em todo tsunami as ondas vêm e voltam. No caso
dos tsunamis da política podem voltar ainda mais rapidamente do
que vieram.
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Caetano Pereira de Araujo