Sob o título “Karl Marx e o nosso tempo”, os artigos de 2018
traduzem a crença de Luiz Sérgio em que no Ocidente – conti-
nente político em que nos situamos – a democratização do Estado
como processo permanente, combinado com a auto-organização
da sociedade, darão sentido e potência às democracias constitu-
cionais, hoje sob o ataque de autoritários de direita e de esquerda.
Como se vê, o tema da democracia política – e do papel da
esquerda para o seu aprofundamento – é o fio que perpassa os
artigos selecionados. Neles, a despeito de reconhecer a tensão
constitutiva do binômio democracia/esquerda, o autor reafirma a
contribuição das lutas sociais e políticas para a ampliação das
liberdades e para o ingresso da grande massa de excluídos no
mundo dos direitos.
Não há que falar, portanto, como ainda o faz parte significativa
das forças de esquerda, em democracia burguesa, a que opõe a
miragem insurrecional de ataque ao poder. Segundo o autor, a
dicotomia direita/esquerda definitivamente não esgota os conflitos
da vida social. E as sociedades contemporâneas, quando não são
suicidas, têm aprendido a construir valores e instituições que rele-
vam o bem comum. Por isso, a visão puramente instrumental da
democracia e a atitude desdenhosa em relação ao caminho proces-
sual das reformas jamais estarão à altura dos desafios da hora.
Com esse livro extraordinário, cuja relevância é ainda mais
visível no contexto em que nos encontramos, Luiz Sérgio Henri-
ques não apenas requalifica seus predicados como pensador da
cultura e da política contemporâneas, como fixa um caminho
programático para todos aqueles que entendem ser indispensável
a renovação da esquerda brasileira para a consolidação e dignifi-
cação da nossa democracia política.
Sobre a obra: Reformismo de esquerda e democracia política,
de Luiz Sérgio Henriques. FAP/Verbena. 303p.
Reformismo de esquerda e democracia política
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