Desfazer as confusões pd52 | Page 189

expressões e jogos cênicos. Gritos, urros e exclamações. “Que os deuses nos protejam”, “Por Héracles”, etc. Recursos de efeitos onomatopéicos que aproveitavam a linguagem da natureza em prol da intenção oratória. A retórica era considerada uma virtude masculina, por sua força vocal e cênica e por ser exercitada nas discussões da praça pública, mercados e tribunais. Era quando o orador bradava, acor- dando a multidão, para ouvir seus argumentos. A mulher jamais poderia assumir tal postura, pois não era cidadã, falava baixo e não frequentava a ágora. Os estóicos representavam a força da retórica por um punho masculino fechado e dirigido para cima. A mão aberta pacificadora e indicando múltiplas opiniões indefinidas era a correta representação da mulher, sempre silenciosa e deli- cada, além de pudica. Aristóteles, em sua Arte Retórica, observou que enquanto esta é característica do homem na ágora ou perante os tribunais, o momento do raciocínio dialético, interior e silencioso, pode ser considerado uma virtude feminina, pois geralmente a mulher triunfa pelo silêncio, pelo calar, pelo sorriso condescendente e não pelo discurso oral e altivo. Hoje, mudados os tempos, temos a igualdade como valor funda- mental e observamos a presença da mulher, ao lado do homem, mas disputando espaços sociais e profissionais com inteligência e voz altiva. O logos e o discurso não são mais propriedades exclusi- vas do homem. Não mais faria sentido hoje ouvir Telêmaco dizer à sua mãe Penélope, que se cale e vá para o gineceu tecer tapetes e esperar a volta de Ulisses. “Não esqueça mamãe que o discurso é próprio do homem”. Retomemos o espírito central desta reflexão para observar que, no Brasil e na conjuntura de nossa logografia, a retórica predo- mina sobre a dialética. As aparências recalcam as essências. Houve um deputado federal gaúcho (Nelson Marquezan), bastante admirado pelo timbre de sua voz (dado retórico impor- tante) que, certa vez, num debate com seu colega gaúcho Pedro Simon ouviu deste, com ironia: “Vossa Excelência é uma bela voz à procura de uma ideia”. (dialética). Os advogados, membros do Ministério Público e juízes, têm difi- culdades de se mostrar em suas atividades profissionais, se antes Advocacia clássica e contemporânea 187