expressões e jogos cênicos. Gritos, urros e exclamações. “Que os
deuses nos protejam”, “Por Héracles”, etc. Recursos de efeitos
onomatopéicos que aproveitavam a linguagem da natureza em prol
da intenção oratória.
A retórica era considerada uma virtude masculina, por sua
força vocal e cênica e por ser exercitada nas discussões da praça
pública, mercados e tribunais. Era quando o orador bradava, acor-
dando a multidão, para ouvir seus argumentos. A mulher jamais
poderia assumir tal postura, pois não era cidadã, falava baixo e
não frequentava a ágora. Os estóicos representavam a força da
retórica por um punho masculino fechado e dirigido para cima. A
mão aberta pacificadora e indicando múltiplas opiniões indefinidas
era a correta representação da mulher, sempre silenciosa e deli-
cada, além de pudica.
Aristóteles, em sua Arte Retórica, observou que enquanto esta
é característica do homem na ágora ou perante os tribunais, o
momento do raciocínio dialético, interior e silencioso, pode ser
considerado uma virtude feminina, pois geralmente a mulher
triunfa pelo silêncio, pelo calar, pelo sorriso condescendente e não
pelo discurso oral e altivo.
Hoje, mudados os tempos, temos a igualdade como valor funda-
mental e observamos a presença da mulher, ao lado do homem,
mas disputando espaços sociais e profissionais com inteligência e
voz altiva. O logos e o discurso não são mais propriedades exclusi-
vas do homem. Não mais faria sentido hoje ouvir Telêmaco dizer à
sua mãe Penélope, que se cale e vá para o gineceu tecer tapetes e
esperar a volta de Ulisses. “Não esqueça mamãe que o discurso é
próprio do homem”.
Retomemos o espírito central desta reflexão para observar que,
no Brasil e na conjuntura de nossa logografia, a retórica predo-
mina sobre a dialética. As aparências recalcam as essências.
Houve um deputado federal gaúcho (Nelson Marquezan),
bastante admirado pelo timbre de sua voz (dado retórico impor-
tante) que, certa vez, num debate com seu colega gaúcho Pedro
Simon ouviu deste, com ironia: “Vossa Excelência é uma bela voz à
procura de uma ideia”. (dialética).
Os advogados, membros do Ministério Público e juízes, têm difi-
culdades de se mostrar em suas atividades profissionais, se antes
Advocacia clássica e contemporânea
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