Desfazer as confusões pd52 | Page 171

que teve de editar atos desse tipo por quatro vezes, terá apro- veitado ao redator do novo edito. Bem informado, Castelo até adiantou o que estaria por vir. [...] tudo indica que se cumprirão as profecias de um expurgo no Poder Judiciário. Diferentemente de Castelo, que escreveu sua coluna no calor dos fatos, o jornalista Zuenir Ventura teve muito mais tempo para refle- xão. Seu belo ensaio 1968: o ano que não terminou (Nova Fronteira, 1988) considera todas as variáveis históricas, inclusive, as externas, para relatar e comentar os de 1968, antes e depois, no Brasil. Afinal, passados 20 anos do furacão, era possível olhar melhor o objeto. Para Zuenir, A violência, que o marechal Costa e Silva confessou ter sentido ao editar o AI-5, ia deixar de ser uma figura de retórica. A partir do dia 13 de dezembro de 1968, ela alteraria de fato a alma e a carne de toda uma geração. 7 Na verdade, “o AI-5 começou a censurar antes de ser editado e a prender antes de ser anunciado publicamente”, como constata o autor Zuenir Ventura. O que o ano de 1968 significa na história política e social brasileira? O historiador Carlos Fico, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro e autor do Livro Além do golpe – versões e contro- vérsias sobre 1964 e a ditadura militar, dentre outros, tem uma visão crítica e distanciada daquele momento. “Há forte memória que associa 1968 a atitudes libertárias”, pondera. “Concreta- mente, entretanto, 1968 foi um ano muito ruim, com mortes de estudantes, assassinatos de militares, prisão de ex-presidente, ataques a teatros, sequestro e espancamento de artistas, roubo de armas militares etc. O movimento estudantil, radicalizado por lideranças simpáticas à luta armada, frustrou-se com o AI-5. Muitos jovens inexperientes se tornaram facilmente recrutáveis pelas organizações que se autodenominavam revolucionárias e vários seriam presos a partir de 1969”. 8 7 8 VENTURA, Zuenir. 1968 . O ano que não terminou . 11ª edição. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1988. 1968 foi “muito ruim”, diz historiador Carlos Fico . Entrevista publicada no Jornal do Brasil, de 25/03/2018, concedida às repórteres Pamela Mascare- nhas e Rebeca Letieri. Disponível em: