enfrentar o poder dos EUA, o embargo econômico de cinquenta anos, a tentativa de desestabilização do país. Assim como muitos outros cubanos, ambos defendem a Revolução. Mas muitos dissidentes compartilham o sentimento de traição expresso por Milanés.
Portanto, o imaginário sobre Cuba, hoje, é resultado de uma combinação de muitos fatores. O combate e a derrubada da ditadura Batista – sim, Cuba era uma ditadura antes da Revolução! – e a restituição da autonomia do seu povo parece ser um traço positivo reconhecido por muitos, inclusive exilados. O problema é o pós-revolução, quando Cuba atingiu níveis de desenvolvimento social similares aos dos países mais poderosos do mundo, deixando para trás nações mais ricas, como o Brasil. Ao mesmo tempo, a promessa de libertação caiu sobre as cabeças do seu próprio povo, na medida em que o personalismo de Fidel Castro e a falta de abertura do regime parecem ter corroído as possibilidades de soerguimento de uma nação que pudesse dar as melhores consequências para a exercício de um socialismo democrático, algo nunca visto antes. Fica uma estranha sensação de que alguma coisa de muito importante que poderia ter sido, se perdeu...
Assim é que, aliando ignorância histórica, ranço nacionalista e reacionarismo político, muitos, hoje, elegem Cuba como um adversário privilegiado, esquecendo que as elites nacionais do continente latino-americano não precisam de motivações exógenas para perpetrarem toda sorte de violência contra os povos dos seus países. Olhar para Cuba com ódio é mais que estupidez. É perder de vista a capacidade de uma experiência histórica particular a iluminar as nossas próprias possibilidades de luta política. Afinal, temos que perguntar, no limite, por que uma experiência bem-sucedida de libertação política deságua em uma longeva ditadura. Ao mesmo tempo, como um país foi capaz de investir seus parcos recursos para melhorar a vida da sua população naquilo que é essencial, mesmo sofrendo um embargo econômico desumano. Entre anão e gigante, Cuba não precisa ser amada ou odiada. Mas muito temos a aprender com uma experiência histórica que incomodou tanto o império soviético quanto o estadunidense.
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Marcus Aurelio Taborda de Oliveira é professor da Faculdade de Educação da UFMG, onde coordena o Núcleo de Pesquisas sobre a Educação dos Sentidos e das Sensibilidades - NUPES. É pesquisador do CNPq.
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