Cuba, lições da dialética e da política
Marcus Aurelio Taborda de Oliveira
A explosão de ódio e ressentimento que vem assolando a América Latina no presente momento de refluxo conservador, com a sua aterradora carga reacionária, tem reservado a Cuba um lugar destacado como alvo preferencial da política. Não apenas no Brasil, país onde representantes da classe média confundem a bandeira do Japão com um símbolo do comunismo, mas por todo o continente, parece pairar um tipo de necessidade de vingança contra o pequeno país caribenho. Fenômeno curioso, se lembrarmos que algumas das principais lideranças políticas recentes do Continente não tinham um apreço especial pelo país, menos ainda pelo comunismo. Muito se poderia falar sobre o anticomunismo imperante no Continente, fruto de políticas deliberadas concertadas muito antes da eclosão da Guerra Fria. Mas não é disso que me ocuparei, aqui. Prefiro refletir sobre o porquê de a pequena Ilha assustar e movimentar com tanta força o imaginário de tantos, à direita e à esquerda do espectro político. Nesse esforço, é preciso pensar Cuba à margem da política mundial até 1959, mas um dos seus principais protagonistas desde a Revolução dos barbudos, que desbancou a ditadura Batista.
Cuba foi o último bastião do Império Espanhol, derrotado e humilhado em 1898. Daquela experiência decorreu a extensão dos raios de domínio estadunidense sobre a Ilha. A despeito de tentativas de sublevação, o país se tornou uma espécie de quintal dos grupos endinheirados do EUA, um tipo de estação turística que pouco ou nada acrescentava à sua população, tal como hoje acontece com Punta Cana, na vizinha República Dominicana, e em outros “paraísos” caribenhos. Para os detentores do dinheiro do planeta o Caribe parece não ter gente, populações, povos, pois foi
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tomado como balneário (diga-se, pouco acessível à população local). Foi esse o imaginário de desfrute do prazer, com drogas, mulheres, jogos, que Hollywood disseminou até os anos 1950. Lembremos que lá Hemingway se fixou, e de lá veio a inspiração para alguns dos seus romances. Logo, o pequeno país era completamente dependente dos padrões econômicos e culturais ditados pelos Estados Unidos, a despeito da riqueza da sua música, da força e inventividade do seu design, da sua literatura. Mas pouca gente sabe disso. A longa presença de Fulgencio Batista à frente do governo, primeiro como presidente eleito nos anos 1940, depois como ditador por quase toda a década de 1950, certamente foi uma condição básica e necessária para que a hegemonia estadunidense imperasse. Aquele sistema profundamente corrupto e autoritário não só era estimulado pelos governos do Norte, mas por eles era protegido.
A Revolução que desalojou Batista, sua família e seus asseclas do poder, pôs em evidência a possibilidade de levante popular em um momento particularmente sensível da Guerra Fria. São muitos os exemplos, como a crise dos misseis e a tentativa de invasão da Baia dos Porcos. Mas é preciso pensar a aproximação de Cuba ao marxismo-leninismo soviético como um acidente inerente aos jogos de poder naquele momento. A feição inicial da Revolução Cubana é a de uma guerra popular, com clara pretensão emancipatória nacional. Ainda hoje se debate sobre os rumos a revolução eariamente limitada pela precariedade de evidências históricas conhecidas.
CUBA