Contemporânea Contemporânea #7 | Page 12

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Michelle Carreirão Gonçalves

Grande parte de minha infância passei dentro da Universidade Federal de Santa Catarina. Meus dias eram preenchidos pelos espaços que iam do Colégio de Aplicação, onde eu estudava, até o Departamento de Física, em que minha mãe trabalhava como secretária. Este lugar era delimitado por apenas um corredor com seus ladrilhos vermelhos, que eu conhecia de cabo a rabo. Havia ainda os banheiros (locais sempre um tanto perigosos porque desertos) e as pequenas áreas verdes com suas mesas e bancos de concreto. Nesses ambientes eu via circular os poucos alunos do curso e os professores que ou eram tidos como loucos ou como maus (muitos eram odiados e temidos pelos estudantes). Conhecia a maioria deles e a mim pareciam gente comum. Já a Física, essa eu não conhecia e só fui a ela formalmente apresentada alguns anos depois, quando cheguei ao Ensino Médio. O terror de muitos dos meus colegas tornou-se um estranho prazer para mim (mesmo que agora já dela não lembre de praticamente mais nada), algo que se intensificou depois da visita que fizemos, meus colegas e eu, ao Laboratório de Física Experimental da Universidade (que ficava naquele mesmo corredor que me era tão familiar). Lá tivemos contato com um infindável número de objetos que demonstravam e explicavam na prática os princípios da Mecânica, da Óptica, do Eletromagnetismo, da Termodinâmica etc. Lembro bem do gerador de

Van de Graff, aquele que deixa todo mundo de cabelos arrepiados ao tocar na esfera eletrizada (esse foi sucesso geral!) e das muitas bolinhas que se mexiam em diferentes direções, em loopings ou mesmo em trajetórias retilíneas. A ciência nunca me parecera tão divertida.

Passados mais de quinze anos dessa experiência, ela volta como imagem, como lembrança. Mas por que? O que faz a roda da minha memória girar nessa direção? A resposta não é o que, mas quem: Abraham Palatnik. O artista plástico brasileiro (de origem judaico russa) que viveu e estudou em Tel Aviv na juventude – com formação especializada em motores de explosão, por um lado, e em Pintura, Escultura e Estética por outro – e que retornou ao Brasil ao final dos anos 1940, é famoso por ser um dos pioneiros da chamada arte cinética no país. Integrante do primeiro núcleo de artistas abstratos do Rio de Janeiro, onde se instalou ao regressar da então Palestina (hoje Israel), Palatnik modificou sua concepção de arte depois de conhecer o trabalho desenvolvido sob orientação de Almir Mavignier no ateliê de pintura do Hospital Psiquiátrico Dom Pedro II, coordenado pela Dra. Nise da Silveira. A produção dos pacientes esquizofrênicos, aliada ao contato com outros artistas e a discussões com o crítico de arte Mario Pedrosa, fez com que Abraham Palatnik colocasse em xeque seu próprio trabalho e rompesse com elementos tradicionais da

ABRAHAM PALATNIK: UMA ARTE QUE SE MOVE