Catálogo Cine FAP Primeiro Semestre de 2018 | Page 19

Texto:“ Confissões de um Comissário de Polícia ao Procurador da República”, por Bruno Andrade. Em: https:// letterboxd. com / timeistheking / film / co nfessions-of-a-police-captain /
(...) Na urgência atual sabemos, porém, que a lei não é uma força superior, não é um Deus, mas sim a expressão do momento histórico-político de uma sociedade. Na Itália a sociedade está em crise, e tudo foi colocado em questão com as tentativas de diálogos entre a polícia e os magistrados. Seria preciso democratizar a lei.
Mas esta lucidez não impede o perigo que surge do nascimento de um novo gênero dramático: o filme político. Esses produtos da moda não carregam nenhuma subversão; eles funcionam unicamente como " objeto comercial ". Seus autores utilizam uma fascinação de tipo hollywoodiana, deixando ao espectador a possibilidade de se identificar a heróis. E assim vemos se multiplicarem vários falsos filmes políticos que não suportam nenhuma leitura políticorevolucionária.
Admito que é um problema enorme, e essencial, mas muito complexo. No limite, eu adoraria afirmar a necessidade de fazer filmes que desagradam o público, mas todos os filmes que desagradam o espectador não são automaticamente bons filmes. Então, é preciso considerar o grau de fascinação do espetáculo.
De qualquer forma, é impossível fascinar abusando de estereótipos ou acentuando as fantasias da criação. Nesses dois casos, pode-se fazer filmes totalmente desagradáveis. Quanto a mim, penso que é necessário chamar a atenção. Além disso, pode-se fazer um filme ideologicamente muito avançado usando os códigos inscritos na reação. Tudo depende do trabalho que se produz.
O filme de que estamos falando parece estar tocando nesta codificação, voltando-se para um estereótipo preciso, culturalmente ligado às massas, misturando a ópera( sequência da calúnia) e uma escrita tradicional do cinema de ficção, já subvertido pela linearidade da narrativa( sequência de falsas pistas, ausência de planos referenciais). Talvez nos aproximamos, por vezes, de um cinema popular político e crítico? Talvez, mas para mim o filme deve ser visto também como a discussão inútil entre dois fracassados. O único que tem razão é o homem que é morto. O comissário quer imitálo, mas se depara com as suas próprias contradições. Embaraçado, ele não para de falar da sua vergonha. Já a personagem de Nero aceita a sua condição de peça da engrenagem.(...)
Damiano Damiani entrevistado por Noël Simsolo, Cinéma n º 164, março de 1972, pp. 43-52.
Se alguém precisar medir o abismo que afasta a fixação tatibitati do novíssimo com o tema " política " de qualquer tentativa reflexiva de produção de um cinema político, está aí um bom começo. Ou: quem nasce para ruminar a indulgência de Kleber Mendonça-Fellipe Barbosa-Anna Muylaert para com os seus heróis positivos não chega jamais em Sergio Sollima-Damiano Damiani-Dino Risi, que desarticularam de forma espetacular as estruturas viciadas do filme de gênero para colocarem em xeque e enxergarem com nitidez justamente a estrutura viciada de toda a sociedade italiana( a Itália como um interminável corredor de manicômio) e a( de) composição do seu executivo-legislativojudiciário( Confissões de um Comissário..., Revolver, In nome del popolo italiano etc.).