Crônica POR ALBERTO VILLAS
Sexo frágil
M
inha mãe viveu num mundo que não é esse nosso em
que vivemos hoje. Mãe de cinco filhos, tinha todos os
dias a casa pra arrumar, os filhos pra cuidar, a roupa
pra lavar, passar, o almoço pra fazer. Não havia leite em caixinha,
arroz parabolizado ou feijão pré-cozido. Ela tinha de ferver o leite
todos os dias porque senão azedava. Tinha que separar os marinheiros do arroz – para quem não sabe, marinheiro é aquele arroz com casca – e tinha que tirar as pedras do feijão. Para quem
não sabe, o feijão não vinha limpinho como hoje, vinha cheio de
pedras.
Minha mãe não era muito de leitura não. Eu me lembro dela
lendo um livro chamado A Filha do Diretor do Circo, da Baronesa
F. Von Brackel e as obras de Alberto Campos, de quem ela era fã.
Nunca soube do que se tratava aquele livro A Filha do Diretor do
Circo. Ela não contava nada pra gente e sempre lia à noite, depois
de rezar sua novena e apagar a vela.
Para ler o livro da Baronesa F. Von Brackel, minha mãe sempre
tinha uma faca ao lado. Não que fosse um livro policial ou para se
defender. Assim que ela acabava uma página, pegava a faca para
abrir a página seguinte, que vinha sempre colada. Sem muito
cuidado, ela metia a faca na Filha do Diretor do Circo e depois de
liberada, começava a ler.
Com as obras de Alberto Campos era diferente. Aquilo era para
ela uma verdadeira Bíblia do futuro. Cada parágrafo, ela parava,
refletia, e chamava as filhas.
Era um tempo em que mulher não dirigia automóvel, nem empresa alguma. Mulher, quase nenhuma, trabalhava fora. Eram
poucas nas universidades e num boteco tomando cerveja, nenhu-
ma. Zero! Mulher não saia sozinha à noite, não ia a campo de
futebol, não trocava pneu, não conseguia trocar uma lâmpada,
nem abrir o pote de geleia. Mulher só comprava absorvente na
farmácia, já embrulhado, pra não passar vergonha ali no balcão.
Nem mesmo nesses tempos de Google e pesquisas avançadas,
consegui achar os livros de Alberto Campos que ela lia e nos chamava a atenção. Fazendo uma pesquisa profunda, desconfio até
mesmo se seriam de Alberto Campos aqueles livros que ficavam
em cima do criado mudo. Mas ela sempre citava seu nome e
quando chamava minhas irmãs, falava:
- Venham ver o que Alberto Campos está dizendo!
Ela ia contando o que estava escrito e acabara de ler. No futuro,
a mulher ia dirigir automóvel! Não somente dirigir mas veríamos
também mulheres trabalhando como motorista de táxi. Segundo
minha mãe, ele contava que lá pelo ano 2000, a mulher ia ser
totalmente independente. Ia trabalhar fora, ganhar o seu próprio
dinheiro, tomar cerveja com as amigas no boteco, sair desacompanhada à noite, ir ao campo de futebol e até mesmo decidir
sozinha que modelo de geladeira, de liquidificador ou de fogão
comprar.
Minha mãe ficava muito assustada com aquelas palavras mas
não duvidada, em momento algum, daquilo que acabara de ler.
Dizia para as minhas três irmãs que elas precisavam estudar
muito, fazer faculdade, ganhar dinheiro, ser independentes para
nunca precisar pedir dinheiro ao marido. Se não, estavam perdidas. Ao ler Alberto Campos, minha mãe, de repente, virou uma
espécie de Beth Friedmam, meio Chiquinha Gonzaga.
Ela percebeu que não estava errada quando o meu tio rico voltou de uma turnê pela Europa, que incluiu Moscou e Stalingrado,
quando São Petersburgo ainda se chamava Stalingrado. Ele veio
contando que viu em Moscou, mulheres garis varrendo a Praça
Vermelha, mulheres policiais na porta do Kremlin e mulheres
dirigindo trens na estação Lubyanka do metrô.
Eram as palavras de Alberto Campos se concretizando. Ela não
se espantou nem um pouco e disse ao meu tio rico, que já previa
isso desde que começou a ler aqueles livros. Hoje, sinceramente,
gostaria que minha mãe estivesse aqui conosco, orgulhosa de ver
suas três filhas - uma advogada, uma psicóloga e outra professora - além de um punhado de netas, todas elas jogando no ataque
de um time que poderíamos chamar de Independente Futebol
Clube.
ALBERTO VILLAS é jornalista e autor.
BECOOL 48