Um golpe contra o
Brasil
Por IVAN SEIXAS
Não há como perdoar.
ngana-se quem acha que a ditadura foi implantada ,
em abril de 1964, com uma quartelada ou alguma
ação improvisada de militares furiosos. Foi um golpe
de Estado anticomunista, antioperário e antinacional, dentro da histeria da Guerra Fria, em uma agressão escancarada para impor um minucioso projeto econômico e social
desenvolvido segundo os interesses do capitalismo estrangeiro
e seus aliados nacionais.
Para impor esse projeto econômico e social era necessário
impor o arrocho salarial e medidas impopulares sem precedentes. E para que isso se efetivasse era necessário o terrorismo de
Estado e a cumplicidade e cooperação do empresariado nacional. A grande maioria dos sindicatos de trabalhadores sofreu
intervenção, que passaram a ser dirigidos por gente de confiança da ditadura e dos patrões. Para garantir a repressão, uma
extensa rede de repressão se instala desde os primeiros momentos da ditadura sob o comando do temido SNI - Serviço
Nacional de Informações, complementada por agentes de repressão particular dentro das fábricas, contratados pelos empresários. Essa cooperação é prevista no organograma do SISNI – Sistema Nacional de Informações, que destaca as
“Comunidades Complementares” com os convênios com
“Entidades privadas conveniadas”.
Toda essa rede de arapongas a serviço do empresariado foi
detectada pela Comissão Estadual da Verdade Rubens Paiva,
de São Paulo, com base em documentos oficiais do SNI, guardados no Arquivo Nacional. Do mesmo modo, o Arquivo do
Estado de São Paulo guarda documentos que mostram que as
empresas entregavam as fichas funcionais de seus empregados
ao DOPS – Departamento de Ordem Política e Social para que
fossem perseguidos pela temida repressão política e essa perseguição servir de desculpas para demitir e colocar o nome do
perseguido nas “listas negras” daqueles que não poderiam conseguir emprego mais. Suas famílias passavam fome e os empresários impunham assim o medo da demissão e a submissão dos
trabalhadores dentro do projeto implantado em abril de 1964.
A Comissão Estadual descobriu também os livros de entrada
e saída no DOPS. Não o livro de entrada de presos, mas o de
visitantes do departamento. Sem nenhuma dúvida, o visitante
mais constante era um funcionário da FIESP – Federação das
Indústrias do Estado de São Paulo, Geraldo Resende de Mattos, homem de confiança do chefe da entidade patronal. Suas
visitas nem sempre têm registrado o horário de saída. Numa
dessas vezes, a entrada foi pouco antes das seis da tarde e sua
E
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saída se dá no dia seguinte quase sete horas da manhã. Óbvio
que o funcionário da FIESP ia lá organizar a repressão ao movimento sindical já amordaçado, reprimido e duramente perseguido. Mais uma vez o projeto econômico e social implantado
em 1964 era garantido pela repressão política da ditadura sem
nenhum disfarce, bem longe da civilidade ou legalidade.
Outro que visitava muito aquele órgão de repressão, tortura e
extermínio e opositores à ditadura militar era Claris Halliwell,
graduado membro do consulado geral dos EUA, que entrava e
saía com muita frequência e também não tinha horário de saída registrado ou só saía no dia seguinte. Em geral, sua presença
lá coincidia com os dias em que aconteciam terríveis sessões de
tortura a membros da resistência ao estado de terror imperante. Sua entrada acontecia junto com conhecidos torturadores
do DOI-CODI de São Paulo como o tenebroso Capitão Ênio
Pimentel Silveira, notório torturador e assassino de presos políticos. A entrada dos dois indica que participavam das sessões
de torturas, como é o caso do dirigente do Movimento Revolucionário Tiradentes (MRT), Devanir José de Carvalho, Comandante Henrique, barbarizado por quase três dias seguidos e
assassinado ao fim dessa jornada.
Torturas, assassinatos e desaparecimentos de opositores militantes de organizações revolucionárias de luta armada aconteciam no mesmo lugar e com a mesma atenção que a repressão
ao movimento sindical e de trabalhadores em geral. A ligação
que há entre Mister Halliwell e Geraldo Resende de Mattos é o
projeto econômico e social implantado em 1964, com orientação, apoio e acompanhamento do governo americano ao Estado usurpado pelos golpistas civis e militares, que se perpetuaram por longos 21 anos seguidos no poder. Causaram danos
em, pelo menos, três gerações de brasileiros e estão impunes
até hoje.
Nesse momento em que se marcam os cinquenta anos do
assalto ao poder por gente que não tinha compromisso com a
democracia e menos ainda com o País, devemos refletir o que
se pode fazer para o Brasil continuar e aperfeiçoar suas instituições. Cometeram crimes de lesa-humanidade e também crimes de lesa-pátria, pois causaram danos ao povo trabalhador,
aos jovens, à cultura nacional, à economia nacional e às instituições nacionais. E continuam impunes. As mortes são imperdoáveis, mas o que se pode dizer da fome causada aos trabalhadores colocados nas chamadas “listas negras”? Não eram
“apenas” os trabalhadores, mas todos os componentes de suas
famílias. Danos morais, políticos e econômicos em mulheres,
crianças e idosos. Não há como perdoar. Tudo cometido em
nome de um maldito projeto econômico e social de uma potência estrangeira.