Os inocentes
brasilianos
Por CYNARA MENEZES
Quando chegamos aqui, os
generais já estavam lá. E não
sabíamos de nada. Apenas
marchávamos.
abe aquela criança acenando com a bandeira do Brasil
de cartolina verde e amarela, diante do pelotão que
passa num desfile militar? Aquela, marchando de chapeuzinho de soldado, em fila, junto com os coleguinhas
da escola no 7 de setembro? De uniforme branco e azul impecável, Vulcabrás nos pés brilhando, sorrindo sob um sol inclemente? Sou eu.
A minha geração, meninos e meninas do interior do Brasil
nascidos no final da década de 1960 e começo dos 1970, é a
mais inocente de todas as vítimas do golpe. Viemos ao mundo
sob uma ditadura militar. Quando chegamos aqui, os generais
já estavam lá. E não sabíamos de nada do que estava acontecendo. Apenas marchávamos.
Marchei todos os anos da minha infância, do pré-primário à
8a. série. Entre os ensaios, que começavam em julho, e o dia 7,
acho que marchei o suficiente para ir a pé do Rio Grande do Sul
até Rondônia. Na véspera da grande data, minha mãe passava
a “farda” (sintomático: chamávamos o uniforme escolar de
“farda” no interior da Bahia) e eu engraxava meus sapatos com
Nugget e os escovava até deixá-los com aparência de novos.
Ficava orgulhosíssima do feito.
Não sabíamos por que marchávamos, só que era “pelo Brasil”. Cantávamos o hino e hasteávamos a bandeira diariamente.
Nas aulas de Educação Moral e Cívica, nos ensinavam que era
crime não respeitar o hino e a bandeira. A propaganda era tanta que até hoje tenho na memória a musiquinha do sesquicentenário da Independência, que aconteceu quando eu tinha 5
anos! “Sesquicentenário da Independência/ Potência de amor e
paz/ Esse Brasil faz coisas/ Que ninguém imagina que faz.”
Também sei de cor o hino brasileiro, o da Independência, o da
Bandeira, o do Soldado e até o da Marinha. Éramos treinados
para ser soldadinhos da ditadura, num eterno tiro-de-guerra,
sem fuzis.
Um ano marchei fantasiada de intelectual, com beca e