BECOOL 19 | Página 11

Os inocentes brasilianos Por CYNARA MENEZES Quando chegamos aqui, os generais já estavam lá. E não sabíamos de nada. Apenas marchávamos. abe aquela criança acenando com a bandeira do Brasil de cartolina verde e amarela, diante do pelotão que passa num desfile militar? Aquela, marchando de chapeuzinho de soldado, em fila, junto com os coleguinhas da escola no 7 de setembro? De uniforme branco e azul impecável, Vulcabrás nos pés brilhando, sorrindo sob um sol inclemente? Sou eu. A minha geração, meninos e meninas do interior do Brasil nascidos no final da década de 1960 e começo dos 1970, é a mais inocente de todas as vítimas do golpe. Viemos ao mundo sob uma ditadura militar. Quando chegamos aqui, os generais já estavam lá. E não sabíamos de nada do que estava acontecendo. Apenas marchávamos. Marchei todos os anos da minha infância, do pré-primário à 8a. série. Entre os ensaios, que começavam em julho, e o dia 7, acho que marchei o suficiente para ir a pé do Rio Grande do Sul até Rondônia. Na véspera da grande data, minha mãe passava a “farda” (sintomático: chamávamos o uniforme escolar de “farda” no interior da Bahia) e eu engraxava meus sapatos com Nugget e os escovava até deixá-los com aparência de novos. Ficava orgulhosíssima do feito. Não sabíamos por que marchávamos, só que era “pelo Brasil”. Cantávamos o hino e hasteávamos a bandeira diariamente. Nas aulas de Educação Moral e Cívica, nos ensinavam que era crime não respeitar o hino e a bandeira. A propaganda era tanta que até hoje tenho na memória a musiquinha do sesquicentenário da Independência, que aconteceu quando eu tinha 5 anos! “Sesquicentenário da Independência/ Potência de amor e paz/ Esse Brasil faz coisas/ Que ninguém imagina que faz.” Também sei de cor o hino brasileiro, o da Independência, o da Bandeira, o do Soldado e até o da Marinha. Éramos treinados para ser soldadinhos da ditadura, num eterno tiro-de-guerra, sem fuzis. Um ano marchei fantasiada de intelectual, com beca e