atómica maio de 2026 | страница 53

Impacto além da ciência

As bombas atómicas não mudaram apenas a política. Também transformaram a cultura e a forma como a sociedade encara o risco tecnológico.

No cinema, filmes como Godzilla refletem o trauma nuclear no Japão após a Segunda Guerra Mundial, através da ideia de destruição causada por forças fora de controlo humano.

Dr. Strangelove expõe o absurdo das decisões militares em contexto de guerra nuclear. The Day After retrata de forma direta as consequências de um conflito nuclear em larga escala. Mais recentemente, Oppenheimer aborda o desenvolvimento da bomba e os dilemas morais enfrentados pelos cientistas envolvidos.

Para além do cinema, o impacto nuclear marcou profundamente outras áreas. Na fotografia, imagens captadas após os bombardeamentos, como as de Yosuke Yamahata, documentaram a destruição e o sofrimento humano, influenciando o fotojornalismo moderno e a forma como a guerra é retratada.

Na literatura e na banda desenhada, surgiram narrativas centradas em mundos pós-apocalípticos, mutações e colapso social, refletindo o medo de uma guerra nuclear global. Estas histórias exploram as consequências de decisões humanas levadas ao extremo e questionam os limites do progresso científico.

Estas representações mostram como o medo nuclear passou a fazer parte da cultura contemporânea, influenciando o cinema, a arte e a perceção pública do progresso científico, e reforçando a ideia de que o avanço tecnológico deve ser acompanhado por responsabilidade.

E se acontecesse em Lisboa?

Simulações modernas ajudam a perceber o impacto real. O simulador Nukemap de Alex Wellerstein permite estimar os efeitos de uma explosão nuclear. Num cenário equivalente à bomba de Hiroshima sobre Lisboa: cerca de 23 mil mortes imediatas, cerca de 67 mil feridos, mais de 200 mil pessoas afetadas por radiação no primeiro dia.

A onda de choque destruiria edifícios, o calor causaria incêndios massivos e a radiação teria efeitos prolongados durante anos.

A escolha da humanidade

            As bombas atómicas representam o ponto mais extremo da ciência aplicada. Revelam o alcance do conhecimento humano, mas também os riscos associados ao seu uso.

A Física permitiu compreender o átomo; a política determinou como esse conhecimento foi aplicado. Desde 1945, o mundo vive sob a possibilidade de uma destruição em larga escala, capaz de alterar o rumo da humanidade em poucas horas.

O Relógio do Apocalipse recorda que o perigo não desapareceu. A distância até à “meia-noite” depende das escolhas feitas hoje, das decisões dos líderes mundiais e da forma como a tecnologia é controlada.

Num contexto de tensões internacionais e avanços tecnológicos constantes, o risco nuclear mantém-se presente. A existência destas armas continua a levantar uma questão central sobre os limites do progresso científico e a responsabilidade associada ao seu uso.

O dilema não é se a tecnologia existe. A questão é como a humanidade escolhe utilizá-la. ◼