EVOLUÇÃO ESPECULATIVA:
os nossos possíveis futuros
Ana Morais e Ângelo Oliveira
A evolução especulativa (ou biologia especulativa) serve como uma ferramenta poderosa de worldbuilding ao aplicar conceitos científicos tais como seleção natural, adaptação e ecologia. A construção do mundo, deixa de ser um exercício puramente estético e surge como um processo biológico verosímil e coerente, tornando o cenário mais profundo, fascinante e credível, criando ecossistemas, fauna e flora fictícios que parecem reais e interconectados. A diversidade destes cenários hipotéticos, permite vislumbrar como seria a Terra daqui a 50 milhões de anos sem a extinção dos dinossauros, ou o que aconteceria com os humanos sujeitos a manipulação genética por uma espécie alienígena ou ainda que vida seria possível numa Terra alternativa.
Em 1895, H.G. Wells fazia uma abordagem a este género com a obra “A Máquina do Tempo”. Após a destruição da civilização por uma guerra nuclear, o cenário futurista mostrava os seus descendentes, resultado da divisão de classes sociais e após mais de 800 mil anos de evolução nesse novo ambiente.
Num passado mais recente, as obras de um visionário, Júlio Verne, antecipavam inúmeras inovações tecnológicas e científicas do século XX e além. As suas propostas para o futuro baseavam-se numa mistura de imaginação fértil com um estudo aprofundado dos avanços científicos da sua época. Seria um vislumbre de worldbuilding?
Uma das primeiras obras verdadeiramente dedicadas à evolução especulativa, publicada em 1981, “After Man” do autor escocês Douglas Dixon, foi considerada a “obra - mãe” do género. Explorava o que se passaria 50 milhões de anos após o fim da humanidade, numa Terra alterada devido ao movimento das placas tectónicas. Já sem a interferência humana, o planeta recuperou, e grupos de animais evoluíram, ocupando os nichos ecológicos vazios e gerando criaturas Icónicas como ratos predadores, coelhos, antílopes gigantes ou um vortex, um misto de baleia e pinguim.
Segundo a teoria de Gaia, apresentada em 1972 por James Lovelock, a Terra é um grande e único organismo vivo, capaz de se autorregular, visando a preservação da vida planetária. Terá sido esta teoria a inspiração para Dixon?
Apesar de ser a obra mais popular, “After Man” é geralmente considerada antiquada no âmbito das suas previsões evolutivas. Já em “Serina” de Dylan Bajda, vemos um exemplo muito mais ambicioso e eficaz. Num mundo fictício (mundo semeado), povoado com uma pequena seleção de formas de vida terrestres e evoluídas, sendo o canário, Serinus canaria, a espécie protagonista do projeto. Ao explorar a evolução e a radiação dessa pequena amostra da vida, observa-se que a inexistência de competição permite a transformação de um simples pássaro canoro numa biosfera inteira de formas diversas, capaz de povoar todos os ambientes, adquirir características de predador terrestre ou de dimensões gigantescas, sendo tudo possível neste cenário.