atómica maio de 2026 | Page 39

Os VADs (Ventricular Assist Devices) funcionam de forma diferente. Nestes dispositivos, o coração natural do paciente permanece no corpo, enquanto uma bomba auxilia o fluxo de sangue de um ventrículo ou de ambos, dependendo do modelo. Existem vários tipos de VADs, começando com o Thoratec, surgindo mais tarde o Berlin Heart e ainda posteriormente os HeartMate I, II e III.

Antes do virar do século, estes dispositivos eram pulsáteis, com câmaras que imitavam o músculo cardíaco: uma membrana movida por ar ou hélio alternava entre sugar e expulsar o sangue, utilizando válvulas unidirecionais para controlar o fluxo.

Com o tempo, verificou-se que estas válvulas eram um ponto crítico, pois favoreciam a formação de coágulos sanguíneos. A partir do século XXI, desenvolveu-se uma nova geração de dispositivos de fluxo contínuo, que dispensam as válvulas pulsáteis, mantendo o sangue a circular de forma constante. O HeartMate III, por exemplo, utiliza bombas com levitação magnética, nas quais um disco flutua dentro do campo magnético, impulsionando o sangue de forma contínua e eficiente e oferecendo um fluxo mais suave e confiável, reduzindo riscos de complicações.

O VAD é alojado profundamente no tórax, dentro do saco pericárdico, e aspira o sangue do ventrículo, bombeando-o para a aorta. A ligação com o exterior é feita através de um fio fino, a driveline, ligado a baterias que permitem ao paciente levar uma vida ativa.

O dispositivo pulsa cerca de 5000 vezes por minuto, exigindo que os pacientes estejam sob anticoagulação rigorosa, para evitar coágulos. Estes dispositivos têm demonstrado resultados notáveis: há pacientes que vivem 10/11 anos com um VAD, e estima--se que mais de 15 000 pessoas em todo o mundo utilizam esta tecnologia.

De acordo com as caraterísticas clínicas de cada doente, o médico seleciona a abordagem mais adequada. Como o próprio referiu, os pacientes candidatos à implantação de um coração artificial “são doentes que têm insuficiência cardíaca avançada (...) que passam a ter internamentos hospitalares repetidos e vão respondendo cada vez pior à medicação. Ficam num funil em que a única alternativa é o transplante.”.

Uma vez que nem todos os doentes reúnem condições para este tipo de intervenção cirúrgica (transplante), devido à presença de patologias que impedem a realização da imunossupressão exigida, as soluções alternativas artificiais, como os VADs, revelam-se cruciais, permitindo assegurar um suporte cardíaco eficaz em situações em que o transplante não é viável.

Estes dispositivos permitiram também contornar o problema da escassez de corações para transplante, particularmente em idade pediátrica, uma vez que as crianças necessitam de órgãos compatíveis também em termos de dimensão, provenientes de outros doentes pediátricos, o que limita significativamente a disponibilidade para transplante.

Os procedimentos de transplante ou de implantação dos dispositivos de assistência ventricular apresentam riscos e incertezas. Pelas palavras do Dr. José Fragata: “em primeiro lugar, há o risco da implantação, por ser uma cirurgia de longa duração e feita com o peito aberto. Depois, tratam-se de superfícies estranhas e o sangue em contacto com superfícies estranhas tende a coagular, portanto os doentes têm de estar anticoagulados. Desta forma, tem de haver um balanço entre a imunossupressão e a infeção - quando deprimimos muito a imunidade os doentes infetam, quando deprimimos muito a coagulação os doentes sangram e quando deprimimos menos, os doentes formam coágulos (tromboses). Os sistemas implantáveis têm ainda o risco de infeção pela driveline, uma vez que é um cabo que sai pela pele, contacta com o exterior e permite a entrada de bactérias.”

Os procedimentos de transplante ou de implantação de dispositivos de assistência ventricular, embora representem avanços científicos na medicina, continuam associados a um equilíbrio delicado entre benefícios e riscos. Trata-se de um acompanhamento contínuo e exigente, em que cada decisão clínica implica ponderar cuidadosamente diferentes variáveis. A necessidade do uso de anticoagulantes, por exemplo, ilustra bem essa complexidade - ao mesmo tempo que previne a formação de coágulos, aumenta o risco de hemorragias. Do mesmo modo, no caso dos transplantados, a imunossupressão é essencial para evitar a rejeição do órgão, mas torna os doentes vulneráveis a infeções.◼